O Exército Vermelho
Os soviéticos antes da II Guerra - Parte I
A Guerra Civil Russa, 1918-1921. Uma das ironias da história russa é que, tendo tomado o poder em Petrogrado minando a disciplina militar e a autoridade civil, os Bolchevistas devem sua sobrevivência a poderosas forças armadas. As tropas de choque da revolução de outubro de 1917 eram soldados e marinheiros militantes, mas mesmo com a adição dos trabalhadores armados da Guarda Vermelha, estas forças eram inadequadas para enfrentar as ameaças ao nascente Estado Soviético.
Forças inimigas, fossem os assim chamadas "Russos Brancos" ou estrangeiros, ameaçavam o novo governo. Com o Exército Imperial russo exaurido por três anos de guerra mundial e desmontado pelos motins, nada servia de barreira entre o novo governo e o vitorioso exército alemão. Em março de 1918, os alemães apoiaram a independência dos estados bálticos da Letônia, Estônia e Lituânia, assim como um movimento separatista na Ucrânia. Uma vez assinado o tratado de paz entre o governo bolchevista e a Alemanha, os antigos aliados dela também intervieram, num esforço de reverter a decisão e trazer de volta a Rússia à Guerra Mundial. Para apoiar as tropas Brancas, soldados ingleses e americanos desembarcaram em Arcangel'sk e Murmansk no norte, enquanto tropas adicionais inglesas e francesas operaram em Odessa, na Criméia, e na região do Cáucaso. Na Sibéria, o altamente profissional exército Tcheco, composto de antigos prisioneiros de guerra russos que tinham se alistado para lutar contra a Áustria-Hungria, dominaram a linha férrea [transiberiana], apoiando os Brancos. Tropas japonesas e americanas se espalharam para ocidente a partir de Irkutsk, na Sibéria, partindo do porto de Vladivostok, no Pacífico.
O resultado foi a Guerra Civil Russa de 1918-1921, uma experiência seminal tanto para o Estado Soviético como para o Exército Vermelho. Durante 1918 e 1919, V.I. Lenin e seu comissário para ações militares, L.D. Trotsky, usaram as linhas férreas para mover suas limitadas reservas de um lado para outro, impedindo a derrota em diversos momentos. Isto se tornou conhecido com a guerra escalonada, na qual forças numerosas eram movidas (escalonadas) por ferrovia, para reforçar sucessivamente frentes que estivessem ameaçadas. Algumas divisões de infantaria foram transportadas até cinco vezes entre frentes durante o curso da guerra. Esta experiência deu a todos os participantes um sentimento dominante em relação à necessidade de reservas estratégicas e forças dispostas em grande profundidade.
A necessidade forçou Lenin a declarar o "Comunismo de Guerra", um sistema de expropriações extremas e repressão política. De forma a criar forças militares expressivas, o novo governo teve que recrutar homens de todos as origens sociais e aceitar os serviços de milhares de antigos oficiais do império. Por sua vez, a necessidade de assegurar a lealdade política de tais "experts militares", levou à instituição do comissário político para cada unidade, que tinha que aprovar todas as ações do comandante nominal.
Finalmente, o novo governo triunfou. No começo de 1920, o comandante tcheco na Sibéria entregou o auto-nomeado líder russo branco, o almirante A. V. Kolchak, em troca de passagem irrestrita para fora do país. Mais tarde, no mesmo ano, o Exército Vermelho repeliu uma invasão polonesa, feita em apoio dos separatistas ucranianos, mas foram por sua vez barrados pelo "milagre ao longo do Vístula", logo antes de Varsóvia. Por anos, os líderes do Exército Vermelho se envolveram em amargas recriminações sobre a responsabilidade por esta derrota. A despeito do reverso na Polônia, em 17 de novembro de 1920 os últimos russos brancos foram expulsos da Criméia. Depois de umas poucas ações no Turkestão e no Extremo Oriente, a guerra acabou.
No processo, a primeira geração de comandantes militares soviéticos tinha criado uma visão única da guerra. Diferentemente das batalhas de trincheiras, fixas da Grande Guerra, a Guerra Civil Russa foi caracterizada pelas imensas distâncias, defendidas por números relativamente reduzidos de tropas. Nestas circunstâncias, os comandantes soviéticos tentaram integrar todas as operações táticas em um plano geral de campanha, almejando objetivos que estivessem situados profundamente na retaguarda inimiga. As duas chaves da vitória provaram ser a concentração de forças superiores para sobrepujar o inimigo em um ponto específico e então manobras rápidas, tais como movimentos de flanqueio, penetrações e cercos, para destruir um inimigo que estivesse disposto de forma tênue. O pré-requisito para tais manobras eram uma força ofensiva altamente manobrável, a qual na Guerra Civil se baseava em trens e carros blindados e, especialmente, formações de cavalaria hipomóvel. A elite do Exército Vermelho, o 1º Exército de Cavalaria do Marechal S. M. Budenny, produziu uma geração de oficiais que acreditavam com paixão na importância da mobilidade e da manobra e logo abraçaram as forças mecanizadas como a arma de sua escolha.
O alvorecer da operação em profundidade, 1922-1937
No período logo depois da guerra, a situação caótica da economia soviética impedia os dispêndios necessários com um grande exército permanente e, em 1925, o Exército Vermelho tinha sido reduzido à 562.000 homens - um décimo de seu poderio máximo durante a Grande Guerra. As divisões de cavalaria e algumas divisões de fuzileiros dos distritos de fronteira permaneceram, mas com tamanho reduzido, enquanto a maioria das divisões remanescentes retiveram somente uma fração da força necessária. Estas divisões dependiam para alcançar o efetivo de guerra de reservistas convocados de regiões territoriais específicas. O sistema adotado em 1924-1925, combinando formações com núcleos de regulares com forças territoriais/milícia, deveria produzir quase 140 divisões durante um conflito, mas suas possibilidades em tempo de paz eram extremamente limitadas.
Numa período de economias, uma das poucas fontes de fundos para experimentos com armas foram os acordos secretos de colaboração germano-soviéticos. Os dois antigos inimigos compartilhavam um receio da Polônia e desejavam contornar as restrições colocadas neles pelos aliados ocidentais na Segunda Guerra. O Tratado de Versalhes (1919) proibiu a Alemanha de possuir tanques, gases tóxicos e aviões mas, por uma década após 1921, o exército e governo alemães proveram fundos e assistência técnica para produzir e testar tais armas na União Soviética. Ambos os lados tiveram a oportunidade de testar equipamentos que não poderiam ter produzido de outra maneira, mas o numero real de tais armas foi relativamente pequeno.
A cooperação soviético-alemã incluiu a troca de observadores para exercícios militares, mas, em retrospecto, os dois exércitos desenvolveram suas doutrinas e teorias militares de forma independente. Durante os anos 20, a experiência da guerra Civil levou os escritores militares soviéticos a reverem todos seus conceitos de como travar a guerra. O antigo oficial tsarista, A.A. Svechin, liderou um debate estratégico, enquanto M.V. Frunze tentou formular uma doutrina militar uniforme, própria para um Estado socialista.
Talvez mais importante, o brilhante comandante da guerra civil, M.N. Tukhachevsky e o teórico militar V.K. Triandofillov, desenvolveram uma teoria estratégica de operações sucessivas, baseada no fracasso soviético contra a Polônia em 1920 e nas ofensivas alemães fracassadas na França em 1918. Colocado de forma simplística, eles acreditavam que os exércitos modernos eram muito grandes e resistentes para poderem ser derrotados em uma batalha cataclísmica. Ao invés disso, o atacante deveria ter que combater uma série de batalhas ofensivas, cada uma seguida por uma rápida exploração na retaguarda inimiga e então outra batalha, quando o defensor reorganizasse suas forças.
Para colocar essas batalhas em um contexto estratégico uniforme, os soldados soviéticos começaram a pensar em um novo nível de guerra, um meio termo entre as táticas das batalhas individuais e a estratégia de toda uma guerra. Este nível intermediário se tornou conhecido como Arte Operacional (operativnaia iskussiva. A Arte Operacional poderia ser pensada como sendo o campo dos comandantes superiores, que planejam e coordenam as operações de grandes formações dentro do contexto de uma operação estratégica ou de toda uma campanha, isto é, uma série de ações culminando na obtenção de um objetivo estratégico. Em 1927, Svechin resumiu esta estrutura teórica: "a tática faz os passos a partir dos quais os pulos operacionais são montados, a estratégia aponta o caminho".
Durante o final dos anos vinte e início dos anos 30, os teóricos soviéticos aperfeiçoaram o conceito da Batalha em Profundidade (glubokii boi). Eles planejaram usar a nova tecnologia, especialmente os tanques e aviões, para penetrar os elaborados sistemas de defesa desenvolvidos durante a Grande Guerra. Emergindo como conceito no Manual de Campanha de 1929, a batalha em profundidade encontrou sua mais completa expressão nas Instruções sobre a batalha em profundidade, publicadas em 1935.
Em 1936, a rápida mudança tecnológica levou, por sua vez, ao conceito maior da Operação em Profundidade (Glubokaia operatsiia). Ao invés de planejar penetrar o inimigo em uma única batalha em profundidade, tática, Tukhachevsky e outros teóricos previam penetrações e explorações em profundidades de operação de 100 quilômetros ou mais. A essência de tais operações profundas era usar as armas mais modernas disponíveis para neutralizar simultaneamente todas as defesas inimigas na maior profundidade possível e então explorar tão rapidamente que o defensor seria incapaz de se reorganizar a tempo. Nas palavras de A.I., "A tarefa principal e básica da arte militar e impedir a formação de uma frente estável [pelo exército defensor], dando às operações uma grande força de impacto e um ritmo acelerado às operações".
Inicialmente, Tukhachevsky e os outros teóricos pretendiam conseguir isto usando as armas da Guerra Civil Russa - formações de infantaria, artilharia e cavalaria, complementadas por carros blindados. Naquela forma, as táticas de Tukhachevsky seriam muito pouco diferentes das dos outros exércitos. Durante e imediatamente após a Grande Guerra, a maior parte dos exércitos ocidentais via o tanque primariamente como uma forma de arma de apoio, para ajudar a infantaria na penetração de posições defensivas preparadas. A teoria operacional e tática soviética evoluiu rapidamente, entretanto e, no início da década de 1930, os teóricos vermelhos incluíam todo o espectro de forças mecanizadas funcionando (pelo menos em teoria) como um sofisticado time de armas combinadas. A infantaria, liderada pelos tanques e apoiada pela artilharia e engenheiros, penetraria as defesas inimigas, enquanto outra artilharia e aviões atacariam mais profundamente na retaguarda inimiga, para serem seguidas por grandes formações, independentes, de pára-quedistas e blindados. Para realizar isto, os tanques seriam organizados em três escalões diferentes: alguns tanques liderariam as penetrações da infantaria; outros realizariam explorações de curto alcance deste rompimento; e ainda outros, operando em grandes grupos de armas combinadas mecanizadas, iriam liderar a perseguição e cerco do inimigo batido. Estes conceitos, que apareceram impressos já em 1929, foram codificados nos Regulamentos Provisórios de Campanha de 1936 do Exército Vermelho.
A idéia de uma operação mecanizada profunda era incomum, mas não era a única em seu tempo. A teoria militar em todos os exércitos evoluiu na mesma direção geral, usando graus variados de mecanização para penetrar as defesas inimigas e assim superar, ou evitar, o impasse da guerra de trincheiras. O que era sem precedentes no conceito soviético foi a sanção oficial que recebeu do ditador soviético, I. V. Stalin, que elaborou grande parte do seu plano qüinqüenal de desenvolvimento econômico para criar a capacidade industrial e a produção necessárias à implementação do conceito. Dados aos problemas da indústria soviética durante a Grande Guerra e a crença que a Revolução Comunista permanecia vulnerável à ataques capitalistas, era natural que Stalin desse uma grande prioridade ao desenvolvimento de uma indústria bélica.
Este esforço frutificou em um período surpreendentemente curto. Com a exceção de uns poucos veículos experimentais, a União Soviética não produziu seu primeiro tanque nacional, o MS-1, baseado em um desenho do Christie feito nos EUA, até 1929. Quatro anos depois, as fábricas russas estavam entregando 3.000 tanques e outros veículos blindados por ano. Um crescimento igualmente rápido ocorreu na aviação, artilharia e outros armamentos.
A sanção oficial e os generosos suprimentos de equipamento foram as bases para um crescimento constante da estrutura da força mecanizada. O primeiro regimento experimental de tanques tinha sido formado em Moscou em 1927, usando 60 tanques construídos no exterior. Três anos depois surgiu a primeira brigada experimental mecanizada, composta de unidades blindadas, infantaria motorizada, artilharia e de reconhecimento.
O desenvolvimento da Operação em Profundidade pedia por mais e maiores formações mecanizadas para poder penetrar as defesas inimigas e então manter a inércia de uma exploração rápida. Em 9 de março de 1932, uma comissão especial do Comissariado de Defesa do Povo recomendou a criação de forças blindadas de todos os tamanhos para realizar funções específicas de combate em todos os níveis de comando. Cada divisão de fuzileiros (infantaria) de 12.500 homens (18.000 em tempo de guerra), incluiria um batalhão de tanques (57 tanques leves), e cada divisão de cavalaria um regimento mecanizado (64 tanques leves). Brigadas de tanques formariam uma força de reserva geral para cada corpo de fuzileiros e exército, e um corpo mecanizado isolado, atuando como um "grupo móvel" dos tempos da Guerra Civil, iria conduzir penetrações profundas nas áreas de retaguarda inimigas. Estes corpos, cada um composto de duas brigadas de tanques e de uma de fuzileiros, eram de fato ligeiramente maiores do que uma divisão ocidental. Cada brigada de tal tipo integrava as diferentes armas combinadas - tanques, infantaria motorizada, artilharia, engenheiros, e canhões antiaéreos.
Os soviéticos formaram seus dois primeiros corpos mecanizados no outono de 1932, três anos antes dos alemães terem criado suas primeiras divisões panzer. Pelos anos seguintes, o número e complexidade das formações blindadas, mecanizadas e aerotransportadas cresceu regularmente. As forças aerotransportadas, em especial, eram forças de elite, compostas em grande parte por dedicados comunistas que tinham aprendido a pular de pára-quedas nas organizações de juventude do Komsomol.
Exercícios em grande escala testaram a teoria de ofensivas mecanizadas e aerotransportadas combinadas. Ao mesmo tempo, o resto do Exército Vermelho gradualmente mudou para uma organização de quadros de regulares, eliminando o sistema misto de quadros/territoriais. Em 1 de junho de1938. O Exército Vermelho era uma força de tempo integral com um milhão e meio de homens.
Naturalmente, a mecanização soviética não foi perfeita. Tal como na Alemanha de antes da Guerra, a maior parte dos tanques produzidos na Rússia era blindada de forma muito ligeira, confiando na velocidade para sua proteção. As comunicações radiofônicas, uma necessidade para a manobra no campo de batalha, eram notoriamente pouco confiáveis. O corpo mecanizado provou ser tão grande e canhestro que em 1935 as forças autorizadas para ele foram reduzidas temporariamente. Devido ao fato do soldado mediano soviético do período não ter experiência como motorista ou mecânico, o equipamento quebrava e se desgastava em um ritmo acelerado. Em retrospecto, alguns historiadores soviéticos admitiram que a ênfase na ofensiva mecanizada levou o Exército Vermelho a negligenciar o planejamento e treinamento para a defesa, pelo menos no nível operacional. Deixados sozinhos, os "tanquistas" soviéticos iriam precisar de vários anos para resolver tais problemas.
Ainda assim, em meados de 1930, a União Soviética liderava no mundo na produção, planejamento e colocação em campo de forças mecanizadas. Talvez mais importante, o Exército Vermelho estava bem a frente de sua contrapartida alemã seja nos conceitos teóricos, seja na experiência prática da guerra mecanizada. Na Alemanha, Heinz Guderian e outros teóricos da arma blindada receberam somente um apoio limitado dos líderes civis e militares - as unidades panzer eram tão parte do blefe diplomático de Hitler como eram um instrumento real de guerra e seu uso não era integrado na doutrina oficial alemã. A produção de tanques tinha uma posição secundária em relação ao de aviões para a nova força aérea alemã, e aqueles tanques que foram produzidos eram geralmente destinados à unidades de apoio de infantaria e outras organizações fora do controle de Guderian. Ao mesmo tempo, o exército alemão como um todo esta somente começando a se expandir para além dos severos limites ditados pelo tratado de Versalhes. Em resumo, se os russos e soviéticos tivessem lutado em meados da década de 1930, o Exército Vermelho teria uma vantagem considerável sobre seu oponente.
Um exército em desordem - 1937-1939
Em 1939 a vantagem tinha desaparecido e o Exército Vermelho estava em desordem. Das muitas causas dessa mudança, a mais séria foi o expurgo que Stalin fez na liderança soviética. Começando em 1934, ele sistematicamente eliminou quaisquer competidores em potencial pelo poder em todo o governo soviético. Em 1934, somente o Exército Vermelho permanecia intocado.
I.V. Stalin sempre amou o Exército Vermelho, mas tinha suspeitas da liderança profissional dele. Durante a Guerra Civil, Stalin serviu como oficial político em diversas frentes. No processo, ele desenvolveu uma profunda suspeita dos soldados profissionais (excluindo seus compadres da cavalaria), especialmente os especialistas militares do antigo exército do Tsar que ajudaram a administrar o Exército Vermelho, mas que, ocasionalmente, o traíam. Stalin foi rápido em culpar os profissionais, incluindo N.N. Tukhachevsky e A.I. Egorov, por todos os contratempos, convenientemente esquecendo da sua parcela de responsabilidade pela derrota na frente de Varsóvia, durante a Guerra Civil Russa.
Uma vez que a paz voltou, Stalin permaneceu desconfortável com teóricos inovadores, tais com Tukhachevsky. Como seu companheiro ditador, Adolf Hitler, Stalin valorizava a lealdade, ortodoxia e subserviência intelectual. Idéias independentes o perturbavam. O único assessor militar aproximado a ele, Comissário K.E. Voroshilov, encorajava os preconceitos de Stalin a este respeito. Voroshilov era um camarada sem imaginação que executava ordens sem questionar. Ele se ressentia do brilho intelectual porque ele ressaltava suas próprias habilidades limitadas como comandante. Como um resultado, Voroshilov avidamente repetia os rumores de uma conspiração militar centrada em Tukhachevsky. Os serviços anteriores de Tukhachevsky sob Trotsky e sua longa visita passada à Alemanha davam alguns resquícios de fato para apoiar as alegações que ele um espião trotskita ou alemão. Em 27 de maio de 1937, o Marechal Tukhachevsky e um certo número de seus colegas foram presos.
O que foi incomum a respeito dos expurgos do exército foram que eles começaram sem os julgamentos públicos ostentosos que acompanharam todos os passos prévios no reino de terror de Stalin. Todos os procedimentos foram secretos e apressados. Um oficial leal, E. B. Gamarnik, cometeu suicídio, para não ter que participar da banca que julgou Tukhachevsky, mas outros oficiais superiores, incluindo os marechais S. M. Budenny e V.K. Bliukher, participaram de boa vontade. No dia 12 de junho, Voroshilov simplesmente anunciou a execução do Comissário Adjunto de Defesa Tukhachevsky, de dois comandantes de distritos militares e seis outros oficiais de alta patente.
Pelos próximos quatro anos, até a invasão alemã, os oficiais soviéticos desapareceram com uma freqüência alarmante. De um total estimado de 75.000 a 80.000 oficiais nas forças armadas, pelo menos 30.000 foram encarcerados ou executados. Incluíam três de cinco marechais; todos os 11 Comissários Adjuntos de Defesa; todos os comandantes de distritos militares; os comandantes e chefes de estado maior da Marinha e da Força Aérea; 14 dos 16 comandantes de exército; 60 dos 67 comandantes de corpo; 136 de 199 comandantes de divisão; 221 dos 397 comandantes de brigada; e 50 por cento de todos os comandantes regimentais. Outros 10.000 oficiais foram demitidos em desgraça.
A base de Stalin para identificar os traidores era tênue, na melhor das hipóteses. Poucos, se é que algum, dos comandantes condenados tinham cometido crimes identificáveis. O único critério consistente parece ter sido eliminar todos os comandantes superiores que não devessem suas próprias carreiras a Stalin e que, portanto, pudessem consistir em um desafio à sua autoridade. Dos aprisionados, 15 porcento foram posteriormente reabilitados para servirem na guerra, alguns deixando a prisão para seguirem diretamente para comandar uma divisão ou até uma unidade maior. Talvez o mais famoso dos prisioneiros fosse K.K. Rokossovsky, que terminou a guerra como um Marechal da União Soviética, comandando uma frente. Os expurgos continuavam quando a guerra abarcou a União Soviética em 1941.
Em 1937-1939, entretanto, a reabilitação das pessoas expurgadas ainda estava distante no futuro. Toda uma geração de comandantes, administradores do governo e gerentes de fábricas foi dizimada. Jovens, muitas vezes sem experiência ou treinamento, acharam-se jogados em altos comandos. Em 1938, por exemplo, o então major S.S. Biriuzov se apresentou na 30ª divisão de fuzileiros de Irkustk, depois de ter terminado o curso de estado maior. Descobriu que o comandante, o comissário político, o chefe de estado maior, e todos os chefes de seção do estado maior, com exceção de um, da divisão tinham sido presos, deixando-o como o comandante da divisão, um posto que pedia por três postos e dez anos a mais de experiência do que ele tinha. Estrelas caíram sobre a turma de 1937 da Escola Voroshilov de Estado Maior. A turma se formou um ano antes do previsto e incluiu futuras sumidades como A.M. Vasilevsky, A.I. Antonov, e M.V. Zakharov, que foram jogados de forma precipitada em postos de estados maiores ou comandos de grande importância. Naturalmente, o treinamento e o trabalho de manutenção sofreram, abrindo o caminho para as performances desastrosas do Exército Vermelho em 1939-1942. Mais ainda, apesar da Batalha em Profundidade e a Operação em Profundidade terem permanecido como conceitos operacionais oficiais do Exército Vermelho, a repentina morte de Tukhachevsky colocou uma mácula na reputação dos conceitos e da própria estrutura da força mecanizada. Muitos dos escritos teóricos de Tukhachevsky foram recolhidos de circulação pública e destruídos.
A Guerra Civil Espanhola (1936-1939) o grande ensaio geral para a Segunda Guerra Mundial, retardou ainda mais o desenvolvimento das forças soviéticas. Um número limitado de tanques e tanquistas soviéticos participaram do lado Republicano, assim como os alemães e italianos tinham dado equipamento e homens para apoiar Francisco Franco. Os soviéticos sofreram um número de reveses. Seus tanques eram blindados de forma muito fraca; tinham tripulações improvisadas que muitas vezes não podiam se comunicar com a infantaria que os acompanhava, que só compreendia o espanhol; e no combate os tanques tendiam a ultrapassar os soldados a pé que os acompanhavam, o que permitia aos defensores fascistas destruir os tanques com certa facilidade. D. G. Pavlov, o chefe das forças blindadas e um dos oficiais soviéticos de maior patente a servir na Espanha, retornou para casa com uma atitude extremamente pessimista. Concluiu que as novas formações mecanizadas eram grandes e canhestras demais para serem controladas, muito vulneráveis ao fogo de artilharia, e teriam grande dificuldade em penetrar posições inimigas preparadas, de forma a poderem conduzir operações em profundidade. Em resumo, os tanques não podiam atacar independentemente, tendo que ser integrados em funções de armas combinadas.
Em retrospecto, outros exércitos tiveram dificuldades semelhantes com a mecanização no final da década de 1930. Exceto a França, todas as nações produziram tanques que eram insuficientemente blindados e tendiam a usar os blindados como unidades independentes, do tipo de reconhecimento de cavalaria, ao invés de o fazer em cooperação próxima com as outras armas combatentes. Certamente, os tanquistas alemães e italianos enfrentaram os problemas semelhantes na Espanha. No caso soviético, contudo, a fraqueza descrita por Pavlov alimentou as chamas da indecisão e suspeita, acessas pelo Grande Expurgo.
Em julho de 1939, uma comissão especial, reunida em resposta à estas críticas, revisou toda a questão da organização das forças blindadas. A comissão era chefiada por um dos seguidores de Stalin, o Comissário Adjunto de Defesa, G.I. Kulik, e incluía alguns importantes sobreviventes da Guerra Civil, como os Marechais S.M. Budenny e S.K. Timoskenko. Poucos oficiais com experiência em blindados ou jovens defensores das idéias de Tukhashevsky tiveram permissão para participar nos estudos da comissão. Em agosto, a comissão chegou a um meio-termo que determinava a remoção dos elementos de infantaria motorizada dos corpos de tanques (o nome que foi dado aos corpos mecanizados em 1938) e das brigadas de tanques, reduzindo essas unidades à um papel de apoio de infantaria. A Comissção Kulik autorizou a criação de quatro novas divisões motorizadas que pareciam muito com as divisões panzer do período e podiam ser usadas tanto como um grupo móvel, para uma penetração limitada, ou como parte de um grupo cavalaria-mecanizado maior, para uma penetração mais profunda, a nível de frente. Apesar dos corpos de tanques terem sido abolidos formalmente em 15 de janeiro de 1940, na prática, dois deles sobreviveram. No todo, os conceitos e estrutura de força blindada tinham regredido a um estágio bem mais primitivo e menos ambicioso do que tinham alcançado em 1936.
Fonte deste artigo: Glantz, David M. When Titans Clashed: how the red army stopped Hitler.
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