Blindado britânico Churchill


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Artigo selecionado

Os transatlânticos combatentes
A luta até a morte entre dois navios de passageiros em 1914 - parte III

No navio de passageiros da Hamburgo-America, Steffan observou: “os eventos aconteceram rapidamente. A seguir, um brilhante relâmpago do navio... um géiser de água a nossa proa. Logo um segundo tiro. Nos viramos em direção ao nosso oponente, para entrarmos em alcance.

Hastear bandeiras e pendões.!

... e nossas bandeiras foram desdobradas no gurupés, reconhecendo a batalha. Um profundo silêncio prevalecia agora por todo o navio, quebrado somente pelos comandos transmitidos pelo tubo acústico para as posições dos canhões."

O Cap Trafalgar respondeu, em momentos, "furiosamente" disparando todos os canhões que podiam apontar. De menor calibre, pesando somente 12,5 quilos, contra os projéteis de 20 quilos que o Carmania podia jogar, as granadas alemãs ainda assim tinham maior alcance do que as britânicas, quase 1.800 metros. Chocalhavam sobre os mastros e massame do navio da Cunard.

"Vamos dar uma surra nele!” Gritou Grant, ignorando o comando mais formal do livro de instrução: “iniciar o combate!”

“Pronto para a luta!”, respondeu o tenente Peter Murchie, que tinha sido o oficial-chefe do transatlântico.

Pulsos de chama e relâmpagos alaranjados jorravam do Cap Trafalgar. Seus artilheiros estavam usando um tipo de granada que não explodia até ter penetrado em chapas de blindagem. Começaram a acertar o alvo.

“A primeira bordada”, relatou St. John, o chefe do rádio, a contrapartida de Steffan, “do inimigo varreu o Carmania da vante a ré na superestrutura.... para a maior parte de nós era nosso primeiro batismo de fogo e alguns se agachavam indiscriminadamente. Eu mesmo me lembro de pensar como terrível seria ser tão impolido.

O rádio estava no convés superior, atrás da chaminé dianteira. Meus assistentes, Frank Cook e Rushforth, estavam de serviço, mas não havia navio ou estação naval britânica no alcance naquele momento. Os alcances de rádio dos navios não eram mais do que 150 a 250 quilômetros durante o dia.

Assumi o posto do rádio e ouvi o navio alemão pedindo por ajuda. Eu sabia um pouco de alemão e comecei a falar no nosso transmissor, desejando confundir o operador e qualquer navio inimigo ouvindo.

O operador do Cap Trafalgar interrompeu sua chamada é enviou ‘was’ (o que?).

Fiquei um pouco sacudido naquele momento, pois a cabina do T.S.F. foi severamente sacudida por diversas explosões de granadas. – Respondi ‘Wie geht´s?’ [o que há?] o operador inimigo ignorou isso e começou a chamar seus camaradas de novo.

Interferi com a comunicação tão forte quanto podia por uns poucos minutos e então a avô de todas as explosões aconteceu – a cabina sacolejou e ficou cheia de fumaça e o aparelho deixou de funcionar.

Duas granadas de 4 polegadas tinham atingido a base da chaminé de ré e explodido simultaneamente, arrancando as ligações de nossa antena.

Nós três fomos para o convés e tentamos limpar as conexões da antena, mas não podíamos fazer nada quanto a isso, pois a antena principal tinha recebido um impacto e era uma massa de escombros emaranhados.

Tivemos uma boa visão do conflito justo quando estava no momento mais acalorado. O Cap Trafalgar estava ao longo de nosso lado de boreste, a cerca de 1.800 metros. Estava chamejando contra nós com seus canhões de 4 polegadas e pom-poms, as granadas rugiam por sobre nossas cabeças, mas um número bem apreciável estava atingindo nossas superestrutura, escaleres e chaminés.

Um dos nossos canhões de boreste foi atingido e a tripulação derrubada, o apontador sendo morto. O canhão foi rapidamente remanejado e estava de novo em ação. Os dois navios estavam manobrando ao redor um do outro a toda velocidade, nosso capitão tentando dirigir o Carmania de forma que o navio inimigo pudesse ser alvejado de nosso quarto, permitindo assim que cinco de nossos canhões atirassem. Nossos artilheiros concentraram sua mira sobre a onda na proa e linha d’água do Cap Trafalgar. Isto eventualmente teve seu efeito.

O barulho era terrível. No meio deste inferno, os camareiros de bordo estavam prestando assistência aos feridos e removendo-os para baixo. O chefe dos camareiros calmamente distribuía limonada aos suados artilheiros.

Uma coisa notável no funcionamento dos canhões de ré era a linguagem decorativa dos artilheiros fuzileiros navais; ela podia ser claramente ouvida vinda através do barulho intermitente da artilharia; um imenso sargento e um fuzileiro “azul” chamado Dyer, com um metro e noventa e três de altura, pesando 115 quilos, gritava seu incômodo com um sotaque impecável, devido a sua incapacidade de conteirar seu canhão contra o alvo.

Meu Deus, esses artilheiros dos fuzileiros navais sabem praguejar! Não era vulgar. Soava poético e inspirador.

Neste momento a maior parte das tripulações dos canhões estava despida até a cintura e a cena no convés parecia muito com as dos dias de Nelson: macacões, túnicas, camisas, tinham sido descartados; o controle de fogo da ponte tinha sido destruído, o controle telefônico para os canhões estava fora de ação. Consequentemente, os artilheiros tinham disparar independentemente.

Uma granada passou através do dispensário médico no convés inferior, sacudindo o cirurgião de bordo, Dr. Clough, e seu pessoal; outra passou por um corredor a ré e derrubou três de um grupo de remuniciamento; um projétil ricocheteou do escudo do canhão número um e estourou a cabeça de um cabo de fuzileiros navais. Então a ponte pegou fogo e se tornou uma massa de chamas. O capitão os oficiais que o acompanhavam tiveram que se retirar para trás e improvisar o aparelho de leme de emergência e tentar controlar o navio da popa”.

Uma circunstância estranha e perturbadora ao danos no paiol foi a ruptura de todo um depósito de travesseiros, enviando penas flutuando ao redor e redor em um vortex que não podia ser facilmente dominado. Dr. Clough tinha estado no meio de uma operação muito séria; a amputação do braço e perna de um ferido. Foi cegado temporariamente pela tempestade branca. No salão de jantar, seus assistentes também estavam trabalhando duro, usando suas instalações de emergência.

“Todas as comunicações da sala de máquinas tinham caído”, disse Barr, “também as bússolas de convés. O fogo, rapidamente se espalhando, pedia por pressa. Dois dos guardas-marinhas salvaram a bússola padrão e algumas das cartas náuticas. ... precisávamos ficar a barlavento.”

Na cabina do capitão Noel Grant, um incêndio, iniciado por uma granada que mesmo assim tinha falhado de explodir, estava ardendo além de qualquer tentativa de controle.

No Cap Trafalgar a destruição era crescente. Cada salva de granadas do Carmania tinha iniciado pelo menos cinco incêndios.

“Decidimos”, continua Steffan, “que nossa superioridade de fogo era, no mínimo, duvidosa. O capitão Wirth decidiu levar o Cap Trafalgar até o alcance de metralhadoras, de forma a criar o máximo de problemas para nosso inimigo.

Tinha meu posto de combate a ré de nossos canhões. Olhando a vante, logo não podia ver mais nada, devido as nuvens de fumaça marrom. O primeiro golpe do inimigo atingiu o mastro dianteiro. A granada tinha ricocheteado no convés e explodiu ao lado do canhão e dos cofres de munição de pronto emprego. Ninguém na tripulação do canhão escapou sem ferimentos. O timoneiro assistente Schneider foi o primeiro de nossa tripulação a morrer em ação. Sua cabeça foi decepada.

Granadas e estilhaços inimigos arrebentaram em pedacinhos as flores em nosso elegante Wintergarten [jardim de inverno]. O mármore foi arrancado das paredes. Entulho se empilhava sobre entulho. O imediato Rettberg foi ferido nas costas e nas coxas por estilhaços de mármore.

Nossos grupos de combate a incêndio trabalhavam rapidamente para extinguir os muitos fogos pelo navio, sofrendo baixas a medida que eles faziam. Sua tarefa se tornava mais complicada, por que as tubulações de água e vapor estavam todas furadas de balas.

A água corria pelo convés, vapor subia em nuvens dos canos rompidos. Ainda assim, mantínhamos nosso canhão disparando efetivamente até que um disparo, vindo de boreste, tornou difícil a pontaria. No meio do fogo e do entulho crescente, tínhamos que tentar limpar nossa peça canhão e coloca-la de novo em ação.

Estávamos agora a cerca de 1.800 metros de distância do inimigo. Tínhamos colocado nossos canhões em bom uso, realmente projetadas para uso limitado nas colônias, até que toda a munição foi gasta. Logo estávamos disparando com somente dois canhões, como o inimigo.

Continuamos virando, queimando, levando-nos a acreditar que éramos os vencedores. Entretanto, continuávamos a tombar mais e mais para boreste. Um tiro de sorte, perfurando abaixo da linha d’água, tinha derrubado uma antepara principal e inundado as salas de máquinas e de caldeiras tão fortemente que as bombas não podiam controlar a entrada da água.”

O tenente Murchie, no Carmania, decidiu que era “o erro daquele idiota desgraçado” o Cap Trafalgar manter-se em alcance de metralhadoras, mesmo que esta estratégia estivesse custando muito às superestrutura do Carmania. Agora que era aparente que o alemão tinha maior alcance do que ele, Grant determinou-se a manter a batalha ardente em alcances ainda menores.

Ele executou uma pirueta para boreste, fazendo com que outros canhões disparassem para o alvo e também diminuindo o efeito da brisa do nordeste, que estava abanando os fogos fervendo para cima, em “brilhantes nuvens púrpuras”.

O inimigo passou a ré do Carmania a cerca de 2.500 metros. Durante estes momentos o fogo cruzado estava no seu mais forte. Os dois pesos pesados estavam agora a pouco mais de um quilômetro e meio de distância, navegando paralelamente – o inglês a dezesseis nós, o alemão a dezoito – em direções opostas. O Carmania, depois de seu gracioso círculo, ainda estava indo para o sul.

Em ambos os navios, o controle de tiro era feito pelos canhões individuais, as comunicações telefônicas tendo sido destruídas. Linhas de vapor externas, também, tinham sido perfuradas em centenas de lugares, suas névoas escaldantes chiavam em todas as direções. Os canos de água também tinham sido rompidos, fazendo com que linhas de baldes fossem o único recurso para o combate aos incêndios.

Todo o Carmania, lembra-se um marinheiro, “era uma miscelânea de destruição”. Seus conveses estavam com estojos de granadas disparados. O lado de estibordo de seu massame estava arrebentado pelos tiros e pendurado em farrapos, o cachimbos de ventilação estavam despedaçados, sua superestrutura estava aberta por buracos, corrimãos e cabeços estavam torcidos a ponto de ficarem irreconhecíveis e fragmentos dos escaleres, turcos – o todo e feio lixo da batalha – estava em todos os locais.

No Cap Trafalgar, os alojamentos além do castelo de proa, assim como todas as acomodações da segunda classe estavam repletas de fumaça. As palmeiras no crescente inferno do Wintergarten queimavam com uma chama amarelada, espalhando uma fumaça particularmente nociva.

Um tiro na cabina do capitão estourou e abriu o cofre como se fosse um melão, espalhando enviando moedas tilintando como uma chuva sobre o convés.

Finalmente, o tenente Steffan recebeu novidades bem vindas do Capitão Thierfelder, no Kromprinz Whilhelm: “Fique firme, estou indo....!”

Ferido por um estilhaço nas costas e perna direita, com a maior parte de suas roupas rasgadas, o comodoro Wirth mesmo assim continuou a “estimular” seu navio, dirigindo o fogo direcionado contra o britânico com aqueles canhões que ainda estavam em ação. Seu timoneiro assistente tinha sido atingido na cabeça, um mestre na perna, outro homem no braço.

Um municiador jogou uma última granada para dentro de seu canhão, pressionando um cotovelo contra o estômago para estancar o bombeamento do sangue. Então ele caiu morto.

A bordo do Carmania, o Artilheiro de Primeira Classe Richard Edward Pierce, saudável e cheio de vontade de lutar aos quarenta e dois anos, recusou a ser considerado como ferido e retirado de ação por causa de um ferimento no braço. Fez com que fosse colocado um curativo e então correu de volta para a posição de seu canhão – só para ser morto instantaneamente por um impacto direto. Deixou oito filhos (uma nona, batizada de Annie Carmania, nasceu postumamente).

Os marinheiros continuaram a alimentar os canhões até que suas mãos estavam empoladas pelo calor dos tubos. Ao redor deles, chamas subiam até o topo dos mastros. Aparentemente assegurando o destino do transatlântico, os extintores químicos estavam quase inoperantes, “aparentemente maculados”, ou defeituosos, de acordo com Barr. Entretanto, umas poucas medidas desesperadas ainda estavam para ser empregadas.

“Bloqueando toda a ventilação”, ele disse, “usando a água de baldes, banheiras, e mesmo os barriletes dos escaleres, eu tentava segurar o fogo, enviando freqüentes mensagens para a sala de máquinas para conseguir que a água chegasse aos nossos canos de serviço do convés”.

Cada maquinista que podia ser dispensado de seu posto principal abaixo e cada oficial e homem que podia deixar os canhões foi recrutado em muitas brigadas de incêndio improvisadas.

Agora era uma hora da tarde, e o incessante canhoneio vinha perturbando a calma do Atlântico Sul por quase uma hora. Todos os pássaros marinhos tinham voado de seus poleiros rochosos em Trindade. Nenhuma criatura vivente, a não ser as tripulações dos dois navios, testemunhavam esse encontro entre dois leviatãs de aço da atualidade.

“Ainda estava ocupado com o fogo”, continuou Barr, “quando um súbito acesso de energia dele me fez procurar pelas causas. Não podia ver que nosso curso tinha mudado mas, estando no lado de bombordo, não podia ver o inimigo. O fogo dos canhões tinha cessado e o capitão Grant estava tentando se aproximar. Grandes labaredas de nossa ponte em chamas rugiam mais altas que o topo de nossas chaminés. O fogo tinha atacado as escadarias levando para baixo e estava se espalhando.

Corri para ré e, do convés dos escaleres, chamei o capitão Grant, que estava na ponte de ré, ou casa do leme, e pedi-lhe para ficar a sotavento se pudesse, pois ainda estávamos sem água.

Com seu braço estendido indicando o navio carvoeiro, agora rapidamente se aproximando do Cap Trafalgar que, voltando-se para boreste, tinha virado dezesseis pontos [180 graus] para bombordo e estava parado, ele gritou ‘quero pegar aquele vaso!’

Eu respondi “você certamente vai perder esse se não ficar longe!”

Quando corri para trás, os canhões estavam silenciosos, suas tripulações alertas e vigilantes; muitos dos bombeiros tinham se aventurado para o convés e todos aqueles na parte de ré do navio podiam ouvir a conversação aos gritos entre mim e o capitão e ver o que se seguiu.

“Relutantemente, Grant deu ordem para se manter afastado”

St. John tinha improvisado “uma antena de emergência, de curto alcance”. Desafiou o calor e as chamas para entrar na cabina do rádio e receber os sinais de outro vaso alemão, “que deveria estar bem próximo”.

O Kromprinz Whilelm, de fato, estava próximo. Thierfelder transmitiu para Wirth que ele não estava a mais de quinze quilômetros para sudoeste; de fato, ele podia ouvir o rufar dos tambores do canhoneio. Em menos de meia hora, ele poderia juntar forças com o cambaleante Cap Trafalgar. Mesmo assim, seria tempo demais.

Não chegando a estar a cinco quilômetros do Carmania, o transatlântico alemão não podia esperar. Virou para sudoeste, indicando que estava tentando varar. Wirth, quase inconsciente pela perda de sangue, não iria baixar as cores. Entretanto, ele ordenou que duas cargas explosivas fossem colocadas na sala de máquinas.

Os escaleres foram baixados. Somente três conseguiram chegar em segurança na água. O grande inclinação fez com que os outros fossem alagados, jogando seus ocupantes na água.

“É hora”, escreveu Steffan, “para um último cigarro...!”

Então, pela fumaça e vapor, três vivas para o Kaiser! Roucos, cantamos o hino nacional.

Duas explosões sacudiram o navio. Rapidamente a ordem, ‘Abandonar....!’. Tudo tinha acabado.”

O Cap Trafalgar, queimando e soltando fumaça como um vulcão no clímax de uma erupção, foi deitando, até que suas chaminés estavam paralelas com o mar. Um dos seus hélices, fora da água, continuou a girar. Metade de sua quilha estava exposta, como a barriga de uma agonizante baleia gigante.

Então, inesperadamente, o vaso, com o convés dos escaleres alagado, se endireitou, a proa mergulhou nas águas, a popa gradualmente subiu, subiu, até que estava quase vertical. As cargas de explosivas detonaram. Steffan escreveu o obituário do navio:

“O Cap Trafalgar afundou com as bandeiras desfraldadas. O mar estava repleto de destroços. Em tal situação, não podíamos contar com certeza com nosso salvamento. Entretanto, agarrei uma tábua até que o Eleonore Woermann, que não tinha se esquecido de nós, me pegou. Durante a busca do capitão Collmorgen, ele salvou a maior parte dos sobreviventes, inclusive os feridos.

Nada mais restava, exceto os redemoinhos que perturbavam o mar azul, destroços e os pequenos pontos brancos dos escaleres. O Cap Trafalgar, tinha sido, um dos sobreviventes se lembrou, “colocado no cofre do mar”.

A tripulação do Carmania, interrompendo seus esforços para salvar seu próprio navio, e inicialmente ficando boquiabertos em silêncio, agora se alinhava nos corrimões para soltar um viva pela brilhante vitória. Um velho, lento vaso, com artilharia de menor alcance do que os canhões inimigos, tinha vencido quase que exclusivamente devido a superior habilidade de combate do Capitão Grant.

Os navios carvoeiros voltaram para recolher os destroços humanos para fora da água. Muitos dos sobreviventes já tinham sido mutilados pelos tubarões. Já durante os trabalhos de salvamento, os mastros do Kronprinz Wilhelm apareceram por sobre o horizonte meridional. Podia ter sido o Dresden, Grant e sua equipe especularam.

Fosse quem fosse, o Carmania não estava em condições de travar outra batalha nesse dia.

Como Grant observou laconicamente, “estávamos em uma posição muito desconfortável”. Em adição aos fogos e a ampla destruição, havia uma falta de instalações de navegação. O leme tinha que ser manejado de uma ponte temporária na popa. As cartas tinham sido todas consumidas pelas chamas.

De forma engenhosa, Barr fez uma improvisação com os queimados restos de um sextante e uma rosa dos ventos em uma travesseiro (para amortecer as vibrações). Por meio desse grosseiro método de localização de direção, mais observações visuais do sol e, mais tarde, das estrelas, ele navegou, “por estimativa e com Deus”, para o sul.

O Kronprinz Wilhelm não perseguiu o navio de passageiros da Cunard. Assegurou-se que os navios de suprimento estavam recolhendo os sobreviventes do Cap Trafalgar, então retornou para as rotas marítimas do Atlântico. Thierfelder, que em toda a probabilidade tinha avistado pelo menos a fumaça dos incêndios do Carmania, nunca explicou por que deixou de se aproximar para acabar com ele [ver abaixo].

As baixas no navio inglês tinham sido notavelmente pequenas: nove mortos e vinte e seis feridos, quatro de forma crítica. Setenta e nove acertos tinham aberto 304 furos no seu casco e superestrutura. Alguns projéteis tinham perfurado por três espessuras de chapas blindadas que tinham sido rebitadas ao redor da ponte. Seus próprios artilheiros tinham disparado 417 granadas.

St. John improvisou um transmissor e tardiamente chamou o cruzador Cornwall para sua ajuda. Também recebeu congratulações de Sir John Fisher, o primeiro lorde do Almirantado: “Parabéns! Você lutou uma bela ação até um resultado bem sucedido!”

Mais tarde, um historiador naval acrescentaria, “nenhum navio isolado combateu até a morte de tal forma histórica e nelsoniana”. A batalha também seria a mais longa ação naval “individual” e a única na qual os oponentes estavam balanceados de forma muito aproximada. E nunca mais dois grandes transatlânticos de luxo se encontrariam e combateriam até a morte.

O próprio St. John escreveu um amen final:

Naquela noite tivemos a triste e impressionante experiência de entregar ao mar os corpos de nossos camaradas mortos.

A noite tinha caído antes que tivéssemos reduzido os conveses a alguma coisa parecida com ordem e, a luz das estrelas, formamos a ré enquanto o capitão leu as preces funerárias. Os corpos deslizaram pela borda, quietamente acompanhados pelas notas tristes do “toque de recolher”.

O capitão então falou à tripulação do navio, dizendo:

“Homens, vocês lutaram como ingleses; estou orgulhoso de vocês”.

O Carmania navegou até Pernambuco [Recife], onde os brasileiros fecharam os olhos enquanto ele fazia grandes consertos. Então ele cruzou o Atlântico para Gibraltar para ainda mais reparos. O “navio prazeroso” do capitão Barr, na sua meia idade, tinha combatido seu caminho até a glória. Mas não iria voltar para a guerra até a primavera seguinte.

Da tripulação do Cap Trafalgar, vinte estavam mortos, inclusive seu capitão. A maior parte desses, entretanto, tinham se afogado ou sido mortos por tubarões. Somente uns poucos foram mortos durante a acalorada ação. Os 279 sobreviventes passaram mais uma semana a bordo do Eleonore Woermann, navegando para aqui e para ali para evitar a marinha britânica, totalmente alertada. Graças a boa navegação e mau tempo, chegaram em segurança a Buenos Aires. Todos passariam o resto da guerra internados na ilha de Martin Garcia.

Enquanto isso, Thierfelder, no Kronprinz Wilhelm, tinha retornado para a caça nas verdes vias do Atlântico Sul – e a incessante caçada de sua tripulação contra os ratos. E assim a guerra no mar continuava.

Observação: o presente artigo tem uma nota:

“Uma resposta para a questão do porque o Kronprinz Wilhelm não prosseguiu para o lado de seu irmão mortalmente ferido pode ser encontrado em um fascinante livro escrito por um de seus oficiais, o alemão-polonês Alfred von Niezychowski (O cruzeiro do “Kronprinz Wilhelm”). Narrando as frenéticas preparações para a batalha, enquanto seu capitão de trinta e quatro anos, Paul Thierfelder, levava-o através do Atlântico Sul, Niezychowski afirmou que a fim do envio dos SOS do Cap Trafalgar inspirou a crença de que o mercante armado tinha ido ao fundo.

“Nossa situação agora tinha se tornado crítica”, escreveu, “sem dúvida nas vizinhanças para as quais íamos havia vasos de guerra aliados. Todos deveriam ter ouvido as chamadas do Cap Trafalgar que, apesar de estarem em código alemão, tinham sido suplementadas pelo Carmania, em código Britânico... Se chegássemos certamente estaríamos muito tarde para ajudar o vaso alemão que já víamos como afundado, e muito provavelmente chegaríamos logo a tempo de sermos engajados em combate por nossa vez”.

Na verdade, o navio britânico mais próximo estava a várias horas de distância e o Kronpriz Wilhelm perdeu a grande oportunidade de sua própria viagem: de navegar e, com uns poucos tiros, acabar o Carmania, adernando e queimando furiosamente,

Possuindo um notável censo de humor, Niezychowski também devota diversas páginas a grande caçada de ratos a bordo do Kronprinz Wilhelm.”

Nota do GrandesGuerras: o Kronprinz Wilhelm viria a ser mais feliz do que o Cap Trafalgar. Ficando no mar por nove meses, capturou quinze navios, afundando quatorze deles (um foi usado para transportar prisioneiros), um total de 58.201 toneladas. O cruzador auxiliar se internou nos Estados Unidos em 11 de abril de 1915, depois de 251 dias de cruzeiro. Teve que tomar essa decisão, pois o navio, que não tinha podido entrar em nenhum porto em todo esse período, vivendo de suprimentos dos navios capturados, estava em péssimas condições, inclusive com um eixo de hélice rachado. Uma das razões que levou o comandante Thierfelder a se internar, foi o aparecimento de uma inexplicável doença a bordo, que estava derrubando os marinheiros as dezenas

A tripulação, durante o seu cruzeiro viver com uma dieta muito rica para a época (farinha de trigo, biscoitos, bolachas doces, manteiga ou óleo, queijo, batatas, vegetais enlatados, carne fresca, leite condensado, chá, café e açúcar refinado), tomados em navios capturados. Contudo, em todos esses produtos, havia uma falta de fósforo, potássio e cálcio. Essa falta de minerais necessários para o ser humano foi causando um lento enfraquecimento dos marinheiros, mas isso só foi percebido quando os homens começaram a cair, chegando a afetar 110 dos tripulantes. A doença era a Beri-Beri. Ao serem internados nos EUA, a doença desconhecida foi tratada por um método revolucionário na época: alimentação com comidas ricas em minerais. Isso curou os tripulantes sobreviventes. Se a medicina da época soubesse das causas da Beri-Beri, Thierfelder talvez pudesse ter continuado seu cruzeiro um pouco mais, usando alimentos capturados ricos em minerais, mas que eram desprezados pelos alemães. O navio internado foi apresado pelos americanos em 1917, passando a servir como transporte de tropas.

Uma segunda observação tem relação com o Brasil: uma das conseqüências do combate entre o Cap Trafalgar e o Carmania foi mostrar ao Governo Brasileiro o perigo que a desabitada ilha de Trindade representava. Por causa do incidente lá, uma guarnição dos fuzileiros navais foi enviada para a ilha, para evitar incidentes semelhantes ao abastecimento e armamento do Cap Trafalgar. O Eber, internado em Salvador, foi afundado por sua tripulação, para não ser capturado quando o Brasil entrou na Guerra.

Fonte deste artigo: The Great War at Sea. A. A. Hehling


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Armamentos : Cap Trafalgar
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O combate se inicia a longo alcance


O Carmania, com o Cap Trafalgar e a Ilha de Trindade ao fundo


Já aproximados, o maior poder de fogo do Carmania faz-se sentir


O Cap Trafalgar afunda, com as bandeiras desfraldadas


Danos na ponte do Carmania


O Cap Trafalgar afunda, com as bandeiras desfraldadas