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Artigo selecionado

Derrotando a moral do inimigo
As fundações psicológicas da guerra de manobra - Parte II

A existência da resistência - Estudos feitos por psiquiatras do Corpo Médico com os casos de fadiga de combate no Teatro Europeu... descobriram que o medo de matar, ao invés do medo de ser morto, era a causa mais comum de falhas em combate nos indivíduos S.L.A. Marshall

Tendo estabelecido uma fundação para o entendimento do dilema que o soldado em combate enfrenta, devemos a seguir olhar para a natureza das respostas do soldado combatente individual ao seu meio ambiente (figura 1). No mundo animal, quando duas criaturas da mesma espécie entram em conflito, o seu combate quase nunca é até a morte. Cascavéis usam suas presas peçonhentas em outras criaturas, mas lutam por constrição entre si; peixes piranhas mordem tudo que se move, mas lutam uns com os outros com piparotes de suas caudas; e animais com galhadas e chifres tentam perfurar e estripar outras espécies com essas armas naturais, mas enfrentam outros da mesma espécie em combates de cabeçada, relativamente inofensivos. Contra a própria espécie de uma criatura, as opções preferenciais da natureza são de “posar” antes e durante um combate simulado, de se “submeter” tornando-se inofensivo ou expondo-se a um golpe mortal, ou “fugir” de um agressor. A opção “luta” quase nunca é usada, assegurando a sobrevivência da espécie.

É amplamente assumido que somente o homem não tem tal resistência a matar. Mas será que ele não tem? O General da 2ª Guerra Mundial, S.L.A. Marshall, veterano e Historiador Oficial do Teatro Europeu durante a 2ª Guerra Mundial, foi o primeiro a trazer à atenção do mundo o fato que somente 15 a 20 porcento dos fuzileiros em combate disparariam suas armas contra um inimigo exposto. Marshall, foi a primeira pessoa na história a conduzir entrevistas sistemáticas com soldados individuais imediatamente depois do combate e, apesar de seus procedimentos metodológicos terem sido recentemente reexaminados, o seu conceito básico, de uma maioria de soldados deixando de perseguir de forma ativa a opção “luta”, sobrevive a um exame detalhado.

“Posando”

O homem não entre em combate para lutar, mas para vencer. Ele faz qualquer coisa que pode para evitar o primeiro e obter o segundo Ardant du Picq.

O antropólogo Irenaus Eibl-Eibesfeldt diz-nos que: “uma pessoa ameaça [posa] tornando-se maior – seja eriçando os pelos, usando cristas nos cabelos ou colocando uma barretina de pele de urso...” Tal plumagem viu seu clímax na história moderna durante a época napoleônica, quando os soldados usavam uma alta, desconfortável, barretina que nenhum propósito servia a não ser fazer o usuário parecer e se sentir uma criatura mais alta, mais perigosa. Da mesma maneira, os rugidos de duas bestas posando são usados pelos homens em combate. Durante séculos, os gritos dos soldados fizeram o sangue de seus oponentes esfriar. Fosse pelo grito de batalha de uma falange grega, o “Hurrah!” da infantaria russa, o lamento das gaitas de fole escocesas, ou o grito rebelde de nossa própria Guerra Civil, os soldados sempre procuraram instintivamente intimidar o inimigo através de meios não violentos antes do combate, enquanto encorajavam-se uns aos outros e impressionavam-se com sua própria ferocidade e simultaneamente criavam um meio muito eficiente de afogar o desagradável grito do inimigo.

Como o advento da pólvora, o soldado recebeu um dos melhores meios de posar. Paddy Griffith nota que os soldados em combate tem uma necessidade desesperada de disparar suas armas:

Volta e meia lemos sobre regimentos disparando incontrolavelmente, uma vez que tenham começado, e continuando até que toda a munição tivesse acabado ou o entusiasmo tivesse sido gasto. Disparar é um ato tão positivo e dá aos homens um alívio tão grande, que os instintos facilmente tomam controle contra o treinamento e contra as ordens dos oficiais

Ardant du Picq foi um dos primeiros a documentar a tendência comum dos soldados de disparar inofensivamente para o ar, simplesmente por atirar. Du Picq fez uma das primeiras pesquisas cuidadosas sobre a natureza do combate com um questionário distribuído a oficiais franceses em 1860. Uma das respostas de oficiais para Du Picq dizia de forma bem franca que “um bom número de soldados disparava para o ar a alcances longos”, enquanto outro observava que “um certo número de nossos soldados disparava quase que para o ar, sem apontar, parecendo querer se estontear, se embebedar com o fogo dos fuzis durante esta absorvente crise”.

O tenente George Roupell encontrou este mesmo fenômeno enquanto comandava um pelotão na 1ª Guerra Mundial. Ele disse que a única forma que podia parar seus homens de atirar para o ar era caminhar ao longo da trincheira, “batendo nas costas dos homens e, assim que conseguia sua atenção, dizendo a eles para atirar para baixo”. E a mesma tendência pode ser vista em um combate no Vietnã, onde, de acordo com um relatório congressional, mais de 50.000 balas foram disparadas para cada soldado inimigo morto.

”Submissão” e “Fuga”

Deve ser observado que quando um corpo [de tropas] espera de fato o ataque de outro até a distância de baioneta (algo extremamente raro), e as tropas atacantes não hesitam, o primeiro não se defende Ardant du Picq.

Uma busca por maior compreensão deste processo traz-nos ao exame daqueles indivíduos em combate – 80 a 85 porcento dos fuzileiros individuais, de acordo com a pesquisa de S.L.A. Marshall – que não matariam ou mesmo “posariam” em combate. Griffith diz que:

Mesmo nos notáveis “currais de abate” de Bloody Lane, Marye´s Heights, Kennesaw, Spotsylvania e Cold Harbor, uma unidade no ataque não só se aproximaria muito de uma linha de defesa, mas podia permanecer lá por horas – e, de fato, por dias – de cada vez. A fuzilaria da Guerra Civil, portanto, não possuía a capacidade de matar uma grande quantidade de homens, mesmo em formações muito densas, a longos alcances. A curtos alcances ela podia matar, e matava, grandes números, mas não muito rápido” O grifo é nosso

Griffith estima que o fogo de espingardas mediano de um regimento napoleônico ou da Guerra Civil, feito contra um regimento inimigo exposto, a um alcance médio de 30 metros, normalmente resultaria em atingir somente um ou dois homens por minuto!. Tais combates de fuzilaria “se arrastavam até que exaustão ou o anoitecer terminasse às hostilidades. As baixas cresciam por o embate se prolongar tanto, não por que o fogo era particularmente mortífero”

Isto não representa um defeito por parte do armamento. John Keegan e Richard Holmes, em seu livro, Soldados, contam um experimento prussiano no final do século XVIII, “no qual um batalhão de infantaria disparou [espingardas de cano liso] a um alvo de 90 metros de comprimento por um metro e oitenta de largura, representando uma unidade inimiga, resultando em 25 porcento de acertos a 205 metros, 40 porcento a 135 metros e 60 porcento a 70 metros”. Isto representa o poder de matar potencial de tal unidade. A realidade é mostrada em seu relato da batalha de Belgrado de 1717, durante a qual “dois batalhões Imperiais [do Sacro Império], preservaram seu fogo até que seus oponentes estivessem a trinta passos, mas quando dispararam atingiram somente trinta e dois turcos e foram imediatamente sobrepujados”. Algumas vezes, o fogo era totalmente inofensivo, como na observação de Benjamin McIntyre sobre um combate noturno totalmente sem sangue em Vicksburg, em 1863:

Entretanto, parece estranho que uma companhia de homens pudesse disparar rajada após rajada contra um grupo de homens a uma distância de não mais de quinze passos e não causar uma só baixa. Ainda assim tal foi (sic) os fatos nesta ocasião.

(O fogo de artilharia, como o de metralhadoras na 2ª Guerra Mundial, é uma questão totalmente diferente, algumas vezes sendo responsável por mais de 50 porcento das baixas em um campo de batalha na época da pólvora negra, e o fogo de artilharia tem consistentemente sido responsável pela maioria das baixas em combate neste século. Há razões para acreditar que isto deve-se tanto a maior eficácia psicológica destes sistemas – devido à processos de comprometimento de grupo em funcionamento em um canhão, metralhadora ou outra arma operada por uma tripulação – como à seu maior potencial mecânico de mortalidade, i.e., sua contribuição para o que os oficiais de artilharia chamam de “densidade de metal no ar”. Este ponto crítico será tratado mais tarde).

Reconstituições históricas recentes também comprovaram essa tendência. Um estudo de 1986, feito pela divisão de estudos de campo da Departamento de Análise Operacional da Defesa britânico usou estudos históricos de mais de 100 batalhas dos séculos XIX e XX, assim como testes de campo usando armas de pulso de laser, para determinar a eficiência em matar destas unidades históricas. A análise foi projetada (entre outras coisas) para determinar se os dados de Marshall sobre não-atiradores eram corretos para outras guerras, anteriores. Uma comparação de performances de combate históricas com a performance de seus indivíduos-teste (que na verdade não estavam matando ninguém com suas armas e não estavam em perigo de um “inimigo”) determinaram que o potencial de matar nessas circunstâncias eram muito maior do que as verdadeiras taxas de baixas históricas. As conclusões dos pesquisadores apoiavam abertamente as descobertas feitas na 2ª Guerra Mundial por S.L.A. Marshall, apontando a “falta de disposição em tomar parte [no combate] como o principal fator que mantinha as verdadeiras taxas de baixas históricas significativamente abaixo dos níveis dos testes feitos com laser.

Somando-se às opções óbvias de atirar por sobre as cabeças do inimigo (posar), ou simplesmente abandonando um avanço (um tipo de fuga), e a largamente aceita opção de carregar as armas e apoiar de outras formas aqueles que estavam dispostos a atirar (um compromisso entre as demandas de submissão e luta), indícios apontam que durante as batalhas na época da pólvora negra, milhares de soldados escolhiam se “submeter” passivamente, tanto a seus inimigos quanto a seus líderes, por meio de tiros “falsos” ou “simulados”. O melhor indicador dessa tendência em direção de fogo simulado pode ser encontrado nas armas recuperadas com múltiplas cargas depois das batalhas da Guerra Civil. De acordo com Lord, depois da batalha de Gettysburg, 27.574 espingardas foram recuperadas do campo de batalha; destas, 24.000 estavam carregadas. Doze mil destas espingardas carregadas foram encontradas com mais de uma carga e 6.000 das armas com múltiplas cargas tinham de três até dez cartuchos no cano. Uma arma tinha sido carregada 23 vezes.

A necessidade prática de uma arma de carregar pela boca de ser carregada em uma posição ajoelhada ou em pé, combinada com o fogo emassado, ombro-a-ombro, dessa época, cria uma situação na qual – diferente da estudada por Marshall – era muito difícil para um homem disfarçar o fato que ele não estava atirando e o que du Picq chamava de “vigilância mútua” das autoridades e pares deve ter criado uma imensa pressão para atirar nesse tipo de batalha. Muitos líderes aproveitavam-se das intermináveis horas que seus soldados tinham gasto em treinamentos de tiro, fazendo com que seus homens disparassem “pelos números”, em um fogo de rajada em que cada homem disparava e carregava junto. Não havia nada do que Marshall denominava de “isolamento e dispersão do moderno campo de batalha” para esconder os não participantes durante o fogo de rajada. Cada uma das suas ações era evidente para aqueles camaradas que ficavam ombro-a-ombro com eles. Se um homem verdadeiramente não fosse capaz de não quisesse disparar, ou mesmo disparar sobre as cabeças do inimigo, como vimos ter sido tão comum, a única forma que ele poderia esconder sua falta de participação era carregar sua arma (rasgar o cartucho, derramar a pólvora, colocar a bala, socá-la, escorvar e armar), trazer à seu ombro e então, não disparar de verdade, possivelmente chegando mesmo a imitar o recuo de sua arma quando todo mundo também disparasse.

Aqui vemos a epítome do soldado industrioso. Cuidadoso e firme ao carregar sua arma no meio da confusão, gritos e fumo da batalha, nenhuma das suas ações pode ser criticada por seus superiores e seus camaradas. Mas secretamente, quieto, no momento decisivo, igual aos 85 porcento observados por Marshall, ele se vê incapaz de puxar o gatilho e matar seu companheiro.

A batalha de Cold Harbor merece um olhar mais cuidadoso aqui, pois o exemplo de “milhares” de baixas ocorrendo em mero “minutos” é o exemplo que a maior parte dos observadores casuais da Guerra Civil Americana usariam para refutar a tese apresentada por Griffith. Bruce Catton, em seu definitivo trabalho de muitos volumes sobre a Guerra Civil Americana, desbanca o engano muito comum, de que 7.000 baixas ocorreram em “oito minutos em Cold Harbor”. É muito correto dizer que a maior parte das cargas isoladas, desunidas, da União feitas em Cold Harbor foram paradas nos primeiros dez ou vinte minutos, mas uma vez que a inércia dos atacantes foi rompida, os soldados atacantes da União não fugiram, e a matança não terminou. Catton observa que:

... a coisa mais impressionante em toda essa fantástica batalha foi o fato de que ao longo de toda a frente, os soldados derrotados [da União] não se moveram para a retaguarda. Ficaram onde estavam, de 35 a 180 metros da linha confederada, cavando as trincheiras rasas que podiam, e mantiveram-se disparando... por todo o dia o terrível som da batalha continuou. Somente um soldado experimentado poderia dizer só pelo som, que o ritmo do combate era em meados da tarde um pouco menor do que na manhã do que tinha sido na baça madrugada, quando as cargas estavam sendo repelidas

De fato, levou oito horas e não oito minutos, para essas horrendas baixas serem causadas nos soldados da União de U.S. Grant. E, como na maior parte das guerras, dos tempos de Napoleão aos dias de hoje, não foi a infantaria, mas a artilharia (neste caso disparando metralha a curto alcance) que causou a maior parte dessas baixas.

As aplicações na Guerra de Manobras das opções do soldado

Se pudermos limpar a “neblina da guerra” dos campos de batalha e perceber o conceito que o soldado mediano em combate tem uma forte predisposição em direção das opção de posar, submissão ou fuga, e uma poderosa resistência a se engajar na atividade de matar, então ganhamos um conhecimento vital sobre a natureza do indivíduo no campo de batalha. E, mais ainda no campo de batalha do que em qualquer lugar na vida, conhecimento é poder.

Desenvolvendo uma Pose superior

Há em cada animação, um ardor natural que é instilado pelo início do combate. Generais não devem controlar, mas sim encorajar esse ardor. É por essa razão que, nos tempos antigos, as tropas atacavam com altos brados, todas as trombetas ressoando, de forma a assustar o inimigo e encorajar a si próprios. Ardant du Picq.

Se aceitarmos que o objetivo final do combate deve ser quebrar a moral do inimigo, então esse objetivo pode ser colocado de forma mais específica que, dentro da estrutura do modelo das “opções do soldado”, o objetivo é encorajar as respostas de submissão e de fuga no inimigo. Nos conflitos no reino animal, isto é normalmente conseguido através de amostras superiores de Poses.

Fazer barulho é provavelmente um dos aspectos mais importantes de posar. Griffith cita um relato de gritos na sua melhor forma nas densas florestas da batalha de Wilderness [do Sertão], na Guerra Civil Americana:

... as pessoas que gritavam não podiam ser vistas, e uma companhia podia fazer-se soar como um regimento, se gritasse alto o suficiente. Mais tarde, pessoas falaram de várias unidades sendo “gritadas” para fora de suas posições

Nestes casos de unidades sendo “gritadas” para fora de suas posições, vemos o posar em sua forma mais bem sucedida, resultante na opção do oponente em escolher a opção de fuga sem mesmo tentar a opção de luta. E, naturalmente, este é o objetivo biológico de posar durante conflitos intraespécies: ela impede os machos de uma espécie de matar-se a si durante confrontos ritualísticos.

Como soldados, posamos principalmente através do poder de fogo, e o valor da artilharia como um meio de dominação psicológica não pode ser subestimado pelo proponente da guerra de manobras. O poder de fogo pode ter um efeito psicológico que é muito maior do que o atrito físico que ele inflige sobre o inimigo, mas tal pose baseada em poder de fogo tem que ser acompanhada por uma manifestação de agressão humana a curta distância, de forma a fazer com a que ele faça com que o inimigo se submeta ou se renda.

Se considerarmos que o poder de fogo tem um significativo valor psicológico ou de “pose”, então nós podemos ter que considerar cuidadosamente tais fatores, como os decibéis feitos por nossas granadas de artilharia e por nossos sistemas de pretrechos pesados (i.e., é uma boa idéia substituir as metralhadoras M60 de 7,62 mm – uma verdadeira e impressionante máquina de ruído – com a Arma Automática de Esquadra, de 5,56 mm, na esquadra de infantaria leve?), o realismo do volume de som produzido por adaptadores de tiro de festim (será que parte da resistência inicial ao M15 versus o M14 foi a forma “fracote” como ele soa quando disparado com seu adaptador de tiros de festim?), e as nuances de usar uma nova geração de protetores eletrônicos de audição no campo de batalha. Isto é, é viável construir um aparelho como se fosse um tampão de ouvido que tornaria possível a eles ouvir as ordens do seu lado, ao mesmo tempo que apagavam o fogo do inimigo, e ainda fazer com que o soldado sinta que seu fogo é uma presença ameaçadora no campo de batalha? Um importante elemento em tal decisão pode ser o grau pelo qual a concussão do disparo de uma arma pode ser “sentida” pelos atiradores; qualquer pessoa que tenha disparado uma M60 ou tenha estado ao lado de uma quando ela dispara irá entender o que eu quero dizer por “sentir” uma arma disparar.

Incentivando a fuga e submissão

Xenofonte diz... “Seja agradável ou terrível, quanto menos uma coisa é prevista, mais ela causa prazer ou aflição. Isto não é melhor ilustrado em lugar algum do que na guerra, onde cada surpresa causa terror mesmo naqueles que são muito mais fortes...”

Um homem surpreendido, precisa de um momento para arranjar seus pensamentos e se defender; durante esse instante ele é morto se não fugir
Ardant du Picq.

Uma pose superior, entretanto, não é sempre o meio mais efetivo de atemorizar um oponente no mundo animal. De fato, investimentos excessivos em confrontações cerimoniais, face-a-face, podem simplesmente resultar em uma abordagem estilizada, orquestrada, de confrontações de pose, na guerra. Uma abordagem mais aplicável ao conflito na natureza seria observar as circunstâncias nas quais um pequeno atacante pode pegar um oponente maior, mais poderoso, de surpresa e assim fazer com que ele se submeta ou fuja devido à inesperada ferocidade de seu ataque.

Os seres humanos geralmente precisam estar emocionalmente preparados, de forma a se engajarem em um comportamento agressivo. O soldado combatente, em especial, precisa ser “preparado psicologicamente” para o confronto. Um ataque lançado em um tempo e local quando o soldado pensou que estava seguro aproveita-se do estresse da incerteza, destrói seu senso de estar em controle de seu meio-ambiente e aumenta em muito a probabilidade que ele irá optar pela fuga (i.e., uma debandada) ou submissão (i.e. rendição em massa). Um inimigo altamente móvel e fluído, que possa lançar ataques de surpresa no que o inimigo acredita ser sua área de retaguarda, é particularmente assustador e perturbador e a presença de tal hostilidade interpessoal pode ser desproporcionalmente destrutiva à vontade de lutar.

Visto de outra forma, atacar em um local inesperado e despreparado resulta na incapacidade do defensor em se orientar. O ciclo observação-orientação-decisão-ação do defensor, ou seu “ciclo OODA”, foi desta forma interrompido e nele não pode responder. Tendo sido pego desbalanceado, o defensor entra em pânico e tenta ganhar tempo fugindo, ou simplesmente se submete, se rendendo em confusão ao seu atacante.

A pesquisa psicológica na área de processamento de informação e processos de tomada de decisão humanas estabeleceu uma ampla base de entendimento das respostas psicológicas normais a um ambiente de “sobrecarga de informação”. A medida que informação em demasia entra, a reação típica é retrair-se inicialmente para respostas heurísticas, ou “de bom senso”. Estas respostas heurísticas envolvem processos tais como: “amarração” à informações antigas, com exclusão de novas informações, possivelmente conflitantes, ou dados mais precisos; tomar decisões baseado em sua “disponibilidade” ou a facilidade pela qual uma determinada resposta vem a mente (p.ex. repetindo uma manobra recentemente executada); ou caindo em uma “tendência confrontacional”, na qual somente a informação que confirma ou dá apoio à proposta de trabalho atual é processada, enquanto a informação contrária é filtrada para fora da consciência. Se estas respostas heurísticas falham (como é bem provável que aconteça), então a resposta humana normal é ficar enredado em um “efeito cascata”, no qual ele reage com ações crescentemente inadequadas e, ou fracassa totalmente, ou cai em um estado de paralisia algumas vezes referido pelos psicólogos como “desesperença aprendida”, mas sempre chamado pelos soldados como “rendição”.

Um exemplo clássico deste tipo de operação de guerra de manobra pode ser observado na campanha de Nathan Bedford Forrest contra as forças de William Tecumseh Sherman, durante a marcha para o mar durante a Guerra Civil americana. Forrest, com somente uns poucos milhares de cavalarianos, forçou Serman a deixar mais de 80.000 para guardar seus centros de abastecimento e sua linha de suprimentos de 550 quilômetros de comprimento. Em várias ocasiões, Forrest caiu de forma inesperada sobre unidades despreparadas, três vezes do seu tamanho, e infligiu baixas desproporcionais contra seus desafortunados inimigos. Sua principal arma foi a surpresa. As unidades do escalão de retaguarda que ele atacava não eram humanamente capazes de manter um preparo de combate em todos os momentos, enquanto as tropas de Forrest entravam em combate já tendo obtido uma “superioridade moral”, pois tinham tido amplo tempo para se prepararem emocionalmente antes de lançarem seus ataques de surpresa.

Capacitando a matar

A aplicação final, e talvez a mais óbvia, de nosso entendimento da aversão do soldado a matar a curto alcance é manipular o treinamento do soldado e as variáveis de seu meio ambiente de combate, de forma a “capacitá-lo” a matar o inimigo. Este “processo de capacitação a matar” é essencial para o entendimento do que está acontecendo ao soldado no campo de batalha, e assim a próxima área a ser examinada, enquanto vemos como derrotar a moral do inimigo.

Os processos de “capacitar a matar”

Eu atirei nele com uma .45 e senti remorso e vergonha. Posso me lembrar de sussurrar como um idiota, “sinto muito” e então só vomitar... vomitei-me todo. Foi uma traição do que tinha sido ensinado desde criança. William Manchester, romancista e veterano da 2ª Guerra Mundial, descrevendo suas reações ao matar um soldado japonês.

A magnitude do trauma associado com a matança tornou-se particularmente aparente para mim em uma entrevista com um velho soldado. Ele era o comandante de um posto da VFW [Veteranos das Guerras no Exterior] onde estava conduzindo algumas entrevistas e ele tinha servido como um sargento na 101ª Divisão Aerotransportada em Bastogne, na 2ª Guerra Mundial. Ele falou livremente de suas experiências e a respeito de seus camaradas que tinham sido mortos, mas quando lhe perguntei sobre quem ele tinha matado, disse que normalmente você não pode estar certo de quem é que fez a morte. Então lágrimas surgiram em seus olhos e, depois de uma longa pausa, disse “mas uma vez eu tive certeza...” sua sentença foi interrompido por um pequeno soluço e dores marcaram a face deste nobre e respeitável senhor idoso. “ainda dói, depois de todos esses anos?”, perguntei-lhe com assombro. “Sim”, disse, “depois de todos esses anos”. E ele não falaria desse assunto de novo.

No dia seguinte ele me disse, “sabe, capitão, as questões que você está perguntando, você deve ser muito cuidadoso para não machucar ninguém com estas perguntas. Não eu, sabe, eu posso agüentar, mas alguns desses caras jovens ainda estão sofrendo muito. Estes caras não precisam ser machucados ainda mais”. E fiquei profundamente comovido pela certeza que estava mexendo nas cascas de feridas profundas e ocultas nas mentes desses afáveis e gentis homens.

Matar em combate aproximado é inquestionavelmente uma experiência profundamente traumática. Anos de pesquisa neste campo me convenceram que há uma poderosa resistência na maior parte dos indivíduos a matar outros seres humanos. Fiquei igualmente convencido que há um conjunto de circunstâncias e pressões que podem fazer com que a maior parte dos seres humanos vençam essa resistência.

Tendo estabelecido a natureza do dilema do soldado e tendo estabelecido a presença das respostas naturais, preferidas, do soldado à agressão, o próximo e mais importante passo é entender as circunstâncias e pressões que podem ser feitas sobre o soldado individual para o “capacitar” a vencer sua relutância a matar. O objetivo desse estudo é tentar entender as forças psicológicas básicas, subjacentes, que são efetivamente manipuladas na guerra de manobras para: (1) dar força a vontade de suas próprias forças e; (2) enfraquecer ou atracar a vontade do inimigo de combater.

Fonte deste artigo: David A. Grossman, em Richard, D. Hooker, Jr. Ed. Maneuver Warfare, an Anthology.


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