Nossa participação na I e II Guerras Mundiais, Pt. 1
Uma grave crítica ao papel do Brasil nas Grandes Guerras, por um veterano da FEB
Beligerantes em duas guerras mundiais, já é tempo de tentarmos, honestamente, um balanço dos esforços do nosso país para a vitória comum e as sugestões de devemos guardar, para o futuro, desse exame de consciência.
Na Primeira Guerra Mundial
Em setembro de 1918, num relatório confidencial apresentado ao Cons. Rodrigues Alves, recém-eleito Presidente da República, sobre a situação política e administrativa do país, Pandiá Calógeras assim definia a nossa posição de combatentes na I Guerra Mundial, ainda em plena indecisão e furor: “A situação do Brasil ante os fatos da política internacional e seus deveres como membro da sociedade das nações só não é de traição por ser de inconsciência”.
Qual era, então, o panorama?
Um panorama sombrio para os aliados. Na frente oriental, a Rússia jogada fora da guerra e os recursos de vastas regiões da Europa abertos ao Estado-Maior alemão. No ocidente, os aliados, com 162 divisões enfrentando 200 alemães, sentiam-se perigosamente expostos a uma derrota; exaustos, mal continham as arremetidas alemães cujo espírito ofensivo ainda em junho de 1918 os levara às vizinhanças de Paris.
A esperança dos aliados de ganhar a guerra ou, pelo menos, encurta-la outros quatros anos, fiava-se na intervenção da América. Não se haviam, por acaso, os EE.UU. e o Brasil, os dois maiores países da América, em território, população e haveres, tornado beligerantes?
Os EE.UU. cumpriram a sua parte e cumpriram-na esplendidamente, superando as expectativas mais otimistas. A sua crônica retrata-se nestes poucos traços, incompletos, porém incisivos, do esforço de um povo vigoroso: declarada a guerra em abril de 1917, em maio operava a esquadra americana em águas européias, em junho desciam na França os primeiros contingentes de tropa, em outubro ocupavam as primeiras posições na frente, em maio de 1918 seus efetivos subiam a meio milhão de homens e, em novembro, ao findar a guerra, eram dois milhões, com planos para três em 1919, com equipamentos próprios e uma massa de material que pasmava os aliados.
A vez do Brasil chegara em outubro de 1917. O afundamento sucessivo dos nossos barcos, através de uma campanha submarina indiscriminada, e o receio gravíssimo de uma vitória alemã custar-nos a mutilação do Sul do país, como vinham exigindo desde meio século os pangermanistas fanáticos, eram mais que suficientes para a nossa entrada na guerra. As elites, com Rui à frente, já tinham compreendido o perigo e tomado partido desde o início da conflagração. O resto do país fez coro por ocasião do afundamento dos nossos navios.
Pais de 29 milhões de habitantes, muitas tradições militares, e recursos econômicos, um século de independência e de vida diplomática, a beligerância brasileira adquiria tanto mais relevo quanto vinha numa hora militarmente difícil para os aliados. O Corpo Expedicionário deveria, pois, ser a conseqüência imediata da nossa entrada na guerra e o instrumento da nossa política, definível em dois objetivos concretos: sobrevivência, isto é, ajudando os aliados a vencer o agressor e, eventualmente, conquistador imperialista do nosso território e projeção mundial na nova ordem internacional que os vencedores levantariam no após-guerra.
Que aconteceu, porém?
Política e administrativamente, nos encontrávamos com um governo medíocre. No Itamarati, um Ministro de Exterior de tendências germanófila, tardiamente substituído. Na política interna, a mentalidade de campanário tantas vezes denunciada por Rui. Declarada a guerra, o que logo acudiu aos conselheiros governamentais, foi a suspensão das garantias constitucionais, com a decretação do estado de sítio em todo o país, o que queria dizer antes uma carta branca para as arbitrariedades dos coronéis e chefetes estaduais, do que um remédio, por exemplo, para a agitação armada nos núcleos coloniais de Santa Catarina, sob orientação do Cônsul alemão de Florianópolis.
“Aqui, vergastava Rui no Senado, em 9 de novembro de 1917, não havia território ocupado, nem território invadido; não se mobiliza, nem se chama a nação em armas. Mas o governo, em lugar de aviventar o espírito público, acender a paixão do povo, em vez de animar a nação, de chamar o país a vir colaborar com o governo, oferece-lhe o estado de sítio, afugentando os elementos de popularidade da guerra, incitando a guerra a ser amaldiçoada pela nação”, relembrando ele, com razão, que fizemos a guerra do Paraguai e durante cinco anos a mantivemos, sem que o governo de então recorresse a essa medida já naquele regime existente.
“Na marinha, diz Calógeras, estávamos com os navios parados nos portos. As guarnições quase não se adastravam. Estudos hidrográficos, sempre possíveis, e de utilidade vital para nós, eram descurados. O tempo de embarque quase se fazia em terra. A vida de bordo, era tão pouco a prática corrente, que embarcados, enjoavam muitas vezes quadros e maruja. A prática de tiro era abandonada, enquanto, inutilizadas pelo tempo, munições eram atiradas ao mar. Era corrente a noção de que não se deve atirar com os 305 m/m porque, assim, se gastam aparelhos caros. Em compensação, porém, tínhamos um batalhão naval que marchava em parada pelas ruas, cantando hinos. Fingiam-se as forças navais imponentes com os arremedos do Tiro Naval e da Reserva naval, mais próprios para desfilarem na Avenida do que a combater, admitindo que elas chegassem a embarcar. Esquadra sem arsenais, sem bases de consertos, de remuniciamento, sem depósitos de combustível.
E, em entrevista não contestada, declarava o Ministro da Marinha que, dada a ordem de mobilização, em uma hora a Esquadra, pronta e com todos os sobressalentes precisos, poderia puxar fogos e sair barra fora, no desempenho da sua missão.
Oito meses depois ela ainda permanecia nos portos, impossibilitada de se mover”.
O Exército, depois da guerra do Paraguai, era a rotina e decadência. Perdidas estavam as lições da campanha, e os militares enleados na vida partidária, alimentando um perigoso antagonismo entre o poder civil e a tropa que tem envenenado nossa vida política e originado tantas quarteladas insensatas. Algumas campanhas internas, como a Federalista e a de Canudos, só vieram exibir esta decadência, agravando os seus problemas e deixando uma melancólica comprovação do malogro das forças regulares, facilmente batidas, como no caso desta última, pelas emboscadas dos nosso sertanejos, presenciando-se, então, expedições após expedições serem organizadas, para realizar o que deveria ter sido uma simples diligência policial no interior baiano.
Em 1908, tentou-se acudir à situação com o estabelecimento do alistamento e sorteio militar, ao mesmo tempo que se projetava a reorganização do Exército, com a criação das grandes unidades e de novos quadros. Cinco Divisões, a 14.249 homens, mais três Brigadas de cavalaria e outras unidades isoladas, eram o seu objetivo.
Em 1918, anunciava o Marechal Hermes da Fonseca, que fora o inspirador da lei de 1908, quando Ministro da Guerra, a execução do programa, pois dizia ele, “a lei do sorteio, atenuada pela regulamentação e criação das linhas de tiro que se espalham por todo o país, preparam para breve numerosa e adestrada reserva”, assegurando, ainda, estar convencido de que, “dentro dos recursos ordinários do orçamento, nos tornaremos dentro de poucos anos uma nação militarmente forte, sem que tenhamos necessidade de manter repletas as casernas”.
Em 1915, nova lei de organização militar procurou reforçar, em pessoal e material, as grandes unidades, passando a Divisão a 16.876 homens.
Em 1917, ao ser declarada a guerra, sugeriu-se a vinda de uma missão militar estrangeira, a francesa seria a mais indicada, para, trazendo-nos a sua experiência do campo de batalha, ajudar-nos a preparar a tropa do eventual Corpo Expedicionário. Para os Estados Unidos seguiu Joffre, com uma equipe de oficiais de Estado Maior; porém o Ministro da Guerra do Brasil declarou dispensar missões estrangeiras, pois, possuía meios, técnicos e materiais para solver o problema.
Em 1918, segundo o testemunho insuspeito de Calógeras, era a seguinte a situação militar do País:
a) Insucesso completo do sistema de alistamento e sorteio militar. As linhas de tiro nenhum valor militar possuíam, senão o de distribuir cadernetas de reservistas aos que fugiam do serviço da caserna. Para os quartéis, ia a gente do interior e da lavoura, desfalcando por outro lado a tropa dos melhores elementos urbanos e dos oficiais e sargentos que dela eram desviados para as funções de instrutores. Os efetivos, apesar do estado de guerra declarado e da possibilidade sempre presente da nossa participação na luta, não passavam de 36.000 homens, em unidades isoladas e incompletas quanto aos efetivos e quanto ao material.
b) Quase, ou nenhuma, indústria de base militar. Os arsenais do governo eram projetos de fábricas e centro de burocratas, onde tudo havia menos trabalho, bastando dizer que a capacidade do principal deles era de 100 a 120 projéteis de 75 m/m por dia, quando a Cada da Moeda, mobilizada na emergência, passou a produzir de 1.000 a 1.200 granadas no mesmo período.
c) Os depósitos vazios. De Norte a Sul choviam telegramas sobre a situação precária da força, sem cobertores, capotes, sem fardamento, sem quartéis, sem viaturas e com a ferramenta de sapa, veículos, arreios, sovados e escassos para os próprios efetivos existentes.
d) A munição de artilharia existente não daria para uma hora de fogo. A cavalaria, sem remonta e sem reservas, estaria a pé quinze dias depois, se, por acaso, entrasse em campanha. Serviços de Saúde e de Intendência, praticamente, inexistentes.
e) A instrução da tropa precaríssima, feita nos pátios dos quartéis, nos jardins das cidades ou em pequenos terrenos nas proximidades dos quartéis. Artilheiros não tinham munição para exercícios e os infantes dispunham de 60 tiros, por homem, por ano. Os campos de instrução existentes, de Saicã (RS) e Gericinó, Rio, tímidas experiências, anotando-se, por exemplo, a respeito desse último, a ausência de coleções líquidas, rios, ou outras, que habilitassem os infantes aos exercícios de transposição de corrente, a vau, em balsa, por meios de fortuna, etc; à cavalaria, para treinar a travessia a nado ou por outras formas; à engenharia, para lançar pontes ou exercitar pontoneiros.
f) As chamadas, pomposamente, grandes manobras não passavam de pequenos exercícios, sem plano e sem alcance.
g) Quadros fracos, ligados a uma lei de promoções absurda, responsável por uma situação que Calógeras, apesar da secura que o caracterizava, achava que só um terremoto destruiria. O progresso na carreira militar dependendo de conchavos, das trocas de votos, das simpatias de meia dúzia de generais reunidos em conclave. Seus estados-maiores, seus parentes, os oficiais a quem já comandaram, suas afeições pessoais... tais os critérios de escolha e de subida na hierarquia militar.
h) Quanto ao Generalato, talvez nem 50% pudessem escapar, assim mesmo incluindo aqueles que só tinham boa vontade, embora profissionalmente fracos. Os quadros estavam cheios de generais que faziam carreira, uns ensinando, outros em disponibilidade do serviço mas com a totalidade efetiva das vantagens. O escândalo chegava ao ponto de atingir ao generalato um professor desses cujo curso era de caligrafia ou desenho. Eram esses, naturalmente, os mais encarniçados opositores à vinda de uma Missão Militar estrangeira para modernizar o Exército.
Mutatis Mutandis, esse levantamento histórico de Calógeras ainda é atual e parece feito com dados contemporâneos...
Em conclusão: Na Primeira Guerra Mundial, a nossa sorte esteve suspensa nos campos de batalha europeus e foi decidida sem a mais leve interferência nossa. Nosso Corpo Expedicionário nunca entrou nas cogitações imediatas do governo de então e mal fomos capazes de enviar um grupo de oficiais, uma missão médica e outra naval, como símbolos da soberania de um país em guerra, porém impotente ou incapaz diante do seu próprio destino.
Houve, é certo, o fornecimento de matérias primas aos países aliados; mas, frisemos que esta foi mais uma contribuição particular, de caráter comercial, espicaçada pelo lucro e não só com contribuições dessa natureza que as nações se impõem na história, senão com outros sentimentos mais generosos.
Demócrito Cavalcanti de Arruda, Capitão da Reserva, Infantaria, Paraíba, 1918, C.P.O.R. de Recife, 1938. Estágio, 1939. Convocado como 2º Tenente em dezembro de 1942 e classificado no 6º R.I., embarcou com o 1º Escalão da F.E.B., passando, depois a Subcomandnate de Companhia. Ferido em Montese em 17 de abril de 1945. Medalhas de Sangue, de Campanha e de Guerra do Brasil. Bacharel em Direito.
Fonte deste artigo: Demócrito Cavalcanti de Arruda, Depoimento dos oficiais da reserva sobre a FEB.
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