Blindado britânico próximo à Remagen


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Stosstrupps
As Unidades de Assalto de Ludendorff

O Início - A utilização das táticas de infiltração – o uso de pequenas forças de infantaria com equipamento leve atacando as áreas de retaguarda inimiga após contornar os pontos fortes da linha defensiva inimiga, isolando estes pontos fortes para serem atacados na seqüência por tropas aliadas equipadas com armamento mais pesado – foi idealizado pelo General Oskar von Hutier, comandante do 18º Exercito imperial alemão, no fronte leste. As unidades que eram utilizadas nesta tática receberam o nome de Stosstrupps, ou unidades de assalto.

Quando o 18º Exército recebeu a dura tarefa de atacar a cidade de Riga, a Rainha do Báltico, em fins de 1917, o General von Hutier tinha um sério problema a resolver. Suas tropas eram numericamente inferiores aos defensores, fortemente entrincheirados em uma série de posições, e já haviam demonstrado sua determinação. Portanto, um ataque utilizando as táticas até então utilizadas, só poderia representar uma coisa – o fracasso. Esta mesma guarnição já havia frustrado os planos alemães em 1916 de alcançar Leningrado.

Diante deste problema Hutier utilizou uma nova tática – a infiltração. Pequenos grupos auto-suficientes sondavam as defesas e abriam caminho, infiltrando-se, no local mais fraco das linhas inimigas, espalhando-se na retaguarda. Mas para tal emprego as táticas de artilharia até então utilizadas não eram eficazes. O ataque a ser efetuado por três divisões numa frente de 900 metros, deveria cruzar o rio Dvina, com 300 metros de largura no ponto de ataque. A travessia seria feita inicialmente por barcos, com pontes flutuantes sendo instaladas depois. Para organizar e preparar o apoio de artilharia, Hutier utilizou o gênio-artilheiro tenente-coronel Bruchmüller.

Bruchmüller, oficial reservista da artilharia, revelou-se um dos mais brilhantes artilheiros de todos os tempos, com uma capacidade sobre-humana de adivinhar com precisão que castigo seria preciso aplicar para fazer determinado alvo capitular ou ceder o suficiente para ser tomado. Era um artilheiro heterodoxo, que gostava de variar sua abordagem dependendo do alvo, e sobretudo não concordava com os métodos e doutrinas empregados pela artilharia durante a Grande Guerra. Empregava combinações diversas de munição e principalmente gás, de formas totalmente contrárias aos livros e manuais da época. Defensor dos ataque de artilharia rápidos e precisos. Elaborou seus planos para o ataque a Riga.

Aproveitando-se da extensa arborização das margens ocupadas pelo 18º Exército, ocultou 750 canhões e 550 minenwerfers [morteiros], divididos em dois grupos: IKA [Infantriebekaempfungs-artillerie - artilharia de apoio a infantaria], para apoio à infantaria e receberiam munição na proporção de quatro quintos de alto explosivo e um quinto de gás “Cruz Azul” [difenilaminoclorarsina] e “Cruz Verde” [fosgênio], e o AKA [Artillerie bekaempfungs artillerie – artilharia para contra-bateria], responsáveis pelo contrabombardeio das áreas de Q.G. e artilharia russas e utilizavam uma proporção de um quarto de alto explosivo para três quartos de gás.

Às 04h00, os canhões iniciaram seu ataque, com três baterias de 15 cm sendo empregadas especialmente nos postos de comando, pontos de comunicação, postos de observação e centros nervosos semelhantes. Às 06h00, o grupo AKA prosseguiu com fogo de contra-bateria, enquanto o grupo IKA se concentrava no ataque às posições de infantaria que defendiam o rio. Este prosseguiu até as 09h10, deslocando-se pela área, mudando de explosivo para gás e de gás para explosivo. Às 09h00 o grupo AKA juntou-se ao ataque, deixando cada bateria AKA um canhão para “alimentar” as nuvens de gás que envolviam as baterias russas, enquanto os outros canhões intensificavam o fogo contra a infantaria.

Às 09h10, todos as canhões mudaram para uma barragem rolante que se demorou sobre a linha avançada russa até que os barcos de assalto chegaram à outra margem do rio, deslocando-se então para a zona defensiva. Atrás iam os homens de Hutier, não nas famosas linhas longas, mas em pequenos grupos, sondando, desviando, enfiando.

A operação foi um sucesso e confirmou as teorias de Bruchmüller e Hutier. Os alemães sofreram poucas baixas, na maioria sapadores trabalhando na instalação das pontes flutuantes. Em 24 horas os alemães controlavam Riga.

Foi o primeiro grande sucesso das táticas de infiltração.

As Táticas.

Táticas que passaram a ser conhecidas como Táticas de Hutier, que tinham quatro regras simples: Bombardeamento curto de artilharia, misturando granadas de alto explosivo e gás venenoso, concentrando-se em neutralizar as linhas de frente inimigas, mas não destruí-las.

Sobre uma barragem rolante, as stosstrupps atacariam, buscando infiltração nas linhas defensivas aliadas, em pontos fracos previamente identificados. As stosstrupps deveriam evitar o combate o máximo possível, seu objetivo e tentar capturar os QGs e os pontos de artilharia.

Depois que as stosstrupps fizessem seu trabalho, as unidades do exercito, pesadamente equipados com metralhadoras, morteiros e lança-chamas, deveriam atacar ao longo da linha de penetração e qualquer ponto forte deixado pelos stosstruppen. Quando a artilharia de campanha estiver reposicionada, os oficiais deveriam controlar diretamente os disparos necessários para acelerar a tomada dos pontos-fortes.

Como último estágio do assalto a infantaria regular deve anular qualquer resistência aliada que ainda restar..

Outros sucessos.

As táticas de Hutier foram novamente empregadas em outubro de 1917 na batalha de Caporetto contra o Exército Italiano.

No fronte de Isonzo os italianos detinha supremacia numérica (41 divisões contra 35). O ataque ficou sobre o comando do General Otto von Below e seu 14º Exército, com nove divisões austríacas e seis alemãs (fornecidas pelo 18º Exército – Hutier). O comandante local italiano do 2º Exército, Capelo, tinha uma postura agressiva, preparando sua linha defensiva e reunindo o grosso de suas tropas para um ataque ao flanco sul de von Below, a leste de Gorizia.

O ataque iniciou, as 02h00, utilizando as táticas de Hutier e ao final do primeiro dia, von Below e suas stosstrupps haviam conseguido uma penetração de 25 km. Em sua segunda arremetida von Below foi acompanhado pelo 5º Exército austro-húngaro de Boroevic, até de 10 de novembro as forças combinadas austro-húngaras e alemãs chegaram a aproximadamente 30 km de Veneza, perdendo o ataque o ímpeto em função das linhas de abastecimento.

Mas foi obtida uma vitória espetacular sobre as forças italianas, que perderam mais de 300.000 soldados (90% feitos prisioneiros). Nesta batalha um obscuro comandante de batalhão foi condecorado, era Erwin Rommel, futuro expoente do exercito alemão. Em função destas vitórias originadas de sua nova tática Hutier recebeu a Pour le Mérite. No mesmo ano Bruchmüller também seria agraciado com a Pour le Mérite. Transferido para o Frente Ocidental, Bruchmüller continuou mostrando o mesmo sucesso, sendo promovido a Coronel em março de 1918.

Com o fim das hostilidades no fronte leste, Hutier e seu 18º exército, bem como suas novas táticas foram empregados no Frente Ocidental, na ofensiva de primavera de Ludendorff. A ofensiva de março de 1918, nomeada Operação Michael, foi efetuada pelos 17º Exército (Below), na ala direita, 2º Exército (Marwitz), ao centro, e o 18º Exército (Hutier), na ala esquerda, ao todo 47 divisões de assalto, sendo a maior parte dessa força pertencente ao 18º de Hutier, junto com ele estava seu especialista em artilharia, Bruchmüller, que preparou seu plano de ataque com mais de 6.000 canhões. No dia 21 de março, como em Riga e Caporetto, os canhões troaram desde as 04h43 até as 09h35, com cinco minutos de intensificação. Atrás da barragem rolante, as 09h40 as stosstrupps avançam, protegidas por um nevoeiro parcial, que persistiria no dia seguinte, conseguiram penetrar as linha aliadas. As baixas aliadas só não foram maiores, apesar do uso da defesa posicional britânica, que levara ao sacrifício de virtualmente um terço das tropas envolvidas (as da Zona Avançada), pela tendência dos comandantes de não fazer sacrifícios inúteis na zona de batalha, permitindo o recuo das tropas para terrenos menos vulneráveis. A ofensiva ao ser encerrada por Ludendorff havia dado aos alemães um retumbante sucesso inicial para as táticas de Hutier e suas stosstrupps, uma penetração de 60 km e mais de 50.000 prisioneiros. Esta operação elevou o prestigio de Hutier e lhe rendeu as folhas de carvalho para sua Pour le Mérite. Mas Ludendorff não soube explorar os sucessos iniciais, esvaziando a ofensiva.

Em abril de 1918, a ofensiva nomeada Georgette (anteriormente chamada George), com a utilização de 26 divisões (mas apenas 12 de assalto) é desencadeado, com Bruchmüller comandando novamente os canhões. No dia 9 de abril as 03h00 começa o ataque inicial da artilharia, e após cinco horas é iniciado o assalto. Na noite de 9 de abril os alemães já haviam conseguido com suas stosstrupps uma penetração de 10 km, numa frente de 16 km. Mas novamente Ludendorff não reforçou os sucessos iniciais das suas tropas de assalto, esvaziando novamente a ofensiva, até sua paralisação em fins de abril. Em maio e iniciado uma ofensiva na frente do 6º Exército Francês (Duchesne) com 41 divisões numa frente de 50 km efetuado pelo 7º Exército (Boehn), e no comando dos mais de 3.700 canhões, o incansável Bruchmüller. Pétain, já havia criado um novo conceito de defesa flexível, mas Duchesne era seguidor das doutrinas de Foch, que havia emitido uma diretiva exortando o combate palmo a palmo do terreno. Isso favoreceu muito as táticas empregadas pelas stosstrupps que conseguiram uma penetração de nada menos que 20 km no primeiro dia, as tropas avançadas de Duchesne, que continham a maior parte do seu exército, após serem abaladas pelo bombardeiro inicial, foram dizimadas onde estavam. Uma divisão britânica, a 8ª, foi reduzida a um efetivo de apenas 1.500 homens ao final do dia, quando então os alemães já haviam atravessado o rio Aisne. No dia 29 de maio os alemães e suas stosstrupps já haviam conseguido uma penetração de 50 km, mas Pétain entrou no jogo com suas novas táticas, e com duas novas divisões americanas, conseguiu esvaziar e finalmente paralisar a ofensiva alemã..

O Fim.

Em junho Ludendorff ordena um ataque, pelo 18º Exército de Hutier no setor de Noyn-Montdidier, defendido pelo 3º Exército Francês (Humbert). Novamente, não se utilizaram de início as táticas de pétain, Humbert era conservador e tentou defender obstinadamente sua linha de frente, atitude ideal para Hutier e suas stosstrupps, que com apenas 13 divisões, conseguiu uma penetração de mais de 11 km só no primeiro dia. Pétain novamente interveio, e com um contra-ataque comandado por Mangin, surpreendeu os alemães.

A última tentativa de Ludendorff em Julho, na região do Marne, comandado por Boehn e seu 7º Exército, esbarrou nas táticas de Pétain, e após breve sucesso inicial, o ataque foi paralisado também. Os aliados desenvolveram métodos defensivos para conter as stosstrupps: mesmo empregando as táticas de Hutier nas ofensivas de junho e julho, os métodos de defesa flexível e em profundidade dos aliados fizeram as stosstrupps falharem. E mais importante os aliados mostraram que já poderiam responder com contra-ataques e, portanto, brevemente estariam retomando a ofensiva.

A Doutrina.

As tropas de assalto eram compostas pelos mais jovens e mais aptos dos batalhões de infantaria existentes, reunidos em unidades especiais. Estas seriam utilizadas como lideres do ataque. As “unidades de batalha” que iriam logo atrás daquelas tropas consistiriam de infantaria pesadamente equipada, metralhadoras, morteiros de trincheira, sapadores, e artilharia de campanha. Cabia-lhes a tarefa de resistir a contra-ataques e tomar pontos fortes. Elas tinham de acompanhar bem de perto as tropas de assalto e não deveriam deixar-se reter por muito tempo, pois sempre haveria mais tropas vindo atrás para lidar com as posições particularmente obstinadas. Toda a doutrina salientava que as tropas avançadas deveriam tomar para si a iniciativa. Em vez de adotarem o princípio aliado de deixar todas as decisões para um Q.G. de formação superior, divisão ou corpo de exército, na retaguarda, que não podia nunca estar atualizado sobre o quadro tático total, os comandantes subalternos na frente eram estimulados a tomar suas próprias decisões e agir de acordo com elas.

Equipamentos.

As stosstrupps estavam equipadas de uma forma impar no exército, na figura 3 vemos o uniforme e equipamento padrão da infantaria alemão em 1918. As stosstrupps receberam prioridade na reorganização feita pelo exercito após o fim da campanha russa.

Uniformes: seus uniformes eram especialmente confeccionados de forma mais resistente, recebendo reforços de couro nos cotovelos e joelhos o que lhes facilitava rastejar.

Submetralhadoras: as stosstrupps estavam armadas com uma porcentagem maior de submetralhadoras por batalhão. Recebendo um desenho especialmente projetado por Hugo Schmeisser a “Parabellum MP-18” com um cartucho de 9 mm.

Fuzis: o armamento principal do stosstruppe era o Karabiner 98 Mauser. Também eram usadas versões modificadas do Gewehr 98 com velocidade de boca e alcance superior ao seu gêmeo da infantaria padrão.

Granadas: cada stosstruppe era armado basicamente com umas doze granadas elas variavam muito, mais a granada padrão dessas tropas era a M1915 "Stielhandgranate" ou a M1916 "Eierhandgranate”.

Canhões de acompanhamento: as stosstrupps receberam canhões especiais para demolição de pontos-fortes com tiros a queima-roupa entre vários houveram certos tipos que se destacaram; como o "Sturmkannone" que era um levíssimo canhão de 37mm desenhado pela Krupp, que foi a base da produção dos antitanque de 37mm da segunda guerra. E o 7,62 cm "Infanterie Geschütz" [canhão de infantaria] que eram peças modificadas das que os alemães capturaram dos russos ao termino da campanha oriental.

Outros petrechos: Os stosstruppen alem do equipamento convencional eles receberam outras armas que não eram distribuídas à infantaria regular. A primeira delas era o lança-chamas que era utilizado principalmente para demolição de pontos fortes e ninhos de metralhadora. Eles também utilizavam interessantes alicates de engenharia para cortar o arame farpado e houve casos de se usarem pontes moveis para que estas fossem montadas sobre as trincheiras para deixar o avanço da infantaria regular mais rápida. Havia também armas exóticas como bestas para ataques noturnos e um bizarro garrote para assaltos corpo-a-corpo. Este último só foi usado uma vez durante a batalha de Caporetto.

Apoio aéreo.

Desde 1916 os alemães enviavam seus caças periodicamente para atacar as linhas britânicas (os alemães não atacavam as linhas francesas graças ao excelente caça Spad XIII que era meio indigesto aos alemães). Com as ofensivas contra os italianos na batalha de Caporetto e própria operação Michael a força aérea alemã iniciou uma serie de raids sobre as linhas aliadas atacando não só as linhas de trincheiras como as reservas que normalmente estavam desprotegidas.

Normalmente contra as reservas os resultados eram excepcionais causando um numero elevadíssimo de baixas graças à falta de cobertura aérea. Essa doutrina aérea de se atacar às reservas foi revivida em maior escala em 1939 pelos Stukas.

Já contra as linhas de trincheiras os raids eram utilizados junto os stosstruppen auxiliando seu avanço atacando, principalmente, a artilharia e os ninhos de metralhadoras, mas também atacando as linhas defensivas com severas saraivadas de metralhadora, destroçando a moral das tropas de defesa que se sentiam normalmente indefesas.

Conclusão.

Em 21 de março de 1918 o general Ludendorf lança a Kaiserschacht [batalha do Kaiser] ou operação Michael, com uso quase irrestrito dos stosstruppen, o assalto inicial teve um sucesso absoluto. Enfim o impasse da guerra de trincheiras existente desde 1914 é quebrado. Depois da ofensiva inicial os alemães romperam mais quatro vezes as linhas aliadas, causando terror entre os oficiais aliados, mas a Alemanha já estava esgotada: depois de quatro anos de bloqueio marítimo havia falta de suprimentos entre as tropas de vanguarda, enfraquecendo seus já desgastados efetivos.

Depois de derrotarem o exercito britânico os alemães praticamente exauriram seus já escassos suprimentos. Então com um contra-ataque o general Petain conseguiu destruir o exercito de vanguarda alemão.

As ofensivas esvaziaram os efetivos do exército Alemão, os efetivos médios de um batalhão caíram de 807 homens para 602 em maio de 1918. E os americanos estavam chegando sempre em maior número, com tropas descansadas e prontas para atacar.

As técnicas de assalto desenvolvidas por Hutier foram a base para a doutrina operacional do exercito alemão inspirando Von Seeckt, Rundstedt e Guderian, sendo consequentemente a doutrina mãe da Blitzkrieg e por conseqüência mãe da doutrina operacional moderna.

Fonte deste artigo: Denny Paulista Azevedo Filho e Luiz Henrique Cipolla Benetti.

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1 - General Georg Bruchmuller


2 - Coronel Oskar von Hutier


3 - Uniforme alemão padrão 1918


4 - Uniforme das tropas de assalto


5 - Stosstruppen, com seu uniforme adaptado ao assalto