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A política de bombardeio contra o Japão
O desenvolvimento da política de ataque por B-29s contra o Japão, com bombas incendiárias, ao longo do ano de 1945.

Convencionalmente equipadas, as Superfortalezas tinham começado a campanha de bombardeio pesado contra o Japão em junho de 1944, fazendo incursões esporádicas e pouco eficientes no Sul de Honshu a partir de bases avançadas na China. Cinco meses depois, em novembro de 1944, um maior número de B-29 estava operando a partir das Marianas, fazendo missões diurnas de precisão em elevada altitude que dependiam de ajuda óptica com o visor de bombardeio Norden. Mas, a despeito do imenso potencial do novo bombardeiro, os resultados dessas primeiras missões tinham sido decepcionantes. O tempo sobre o Japão muitas vezes interrompia o bombardeio acurado de alvos industriais - na maioria fábricas de aviões - escolhidos por seu valor estratégico. Bombardeando em altitudes de 8.000 a 10.000 metros, os B-29 pressurizados encontravam ventos de mais de 150 nós, fenômeno inesperado. Esses ventos de grande altitude freqüentemente davam aos já rápidos bombardeiros velocidades de solo acima de 700 quilômetros por hora, tornando virtualmente impossível a tarefa do bombardeiro de colocar sua carga de bombas de 225 quilos dentro dos limites de um único complexo industrial.

Nessas primeiras incursões diurnas, os B-29 também costumavam encontrar caças inimigos. Embora as Superfortalezas com seus motores R3350 de turbo-compressão pudessem superar a maioria dos caças japoneses (e muitos norte-americanos) em grande altitude, os pilotos japoneses perseguiam com insistência as formações de bombardeiros norte-americanos.

Mas, defensivamente, o B-29 era de fato uma superfortaleza, armada com muito mais eficácia do que o B-17. A Superfortaleza B-29 padrão exibia metralhadoras de calibre .50 montadas em torre, que três artilheiros no separado compartimento pressurizado atrás da asa operavam por controle remoto, dotadas de visões eletroópticas centrais de controle de tiro que permitiam às duas torres superiores e às duas inferiores detectar e atacar caças inimigos com surpreendente velocidade e precisão.

Depois que aumentou a resistência dos caças japoneses às Superfortalezas, as torres superiores da frente foram modificadas para ter quatro metralhadoras. O artilheiro da cauda, em seu próprio compartimento pressurizado, disparava manualmente duas metralhadoras de calibre .50 mirando visualmente. (No B-29B, que sempre bombardeava no escuro, o artilheiro da cauda usava o radar de controle de tiro AN/APQ-IS). Graças à enorme capacidade de força ascensional da Superfortaleza, o bombardeiro podia levar de 8.000 a 12.000 descargas de munição, o que permitia aos artilheiros atirar quase ininterruptamente no ataque a caças inimigos temerários o suficiente para se aventurarem no raio de ação.

Mas, sem se deixarem intimidar, os pilotos de caças japoneses continuavam a defender sua terra natal com corajosa determinação, partindo cada vez mais para o implacável expediente de abalroar os B-29. As perdas acumuladas de tripulantes de B-29 em agosto de 1945 não estavam perto da horrível carnificina do Teatro Europeu de Operações, onde quase 20.000 bombardeiros britânicos e norte-americanos foram abatidos e 80.000 tripulantes tinham sido mortos. Mas havia muito menos Superfortalezas disponíveis no Teatro do Pacífico. Isso significava que os números de vítimas entre os tripulantes dos B-29 devidos à ação do inimigo e a emergências "operacionais", como falha de motor e erro de navegação, inerentes a esse tipo de missões longas sobre o oceano - vítimas que chegaram a 34% na campanha inicial de bombardeio estratégico -, abatiam o moral dos tripulantes norte-americanos.

Quando o general-de-brigada Curtis LeMay assumiu o XXI Comando de Bombardeiros, em 20 de janeiro de 1945, ele próprio se viu sob intensa pressão do general Henry H. "Hap" Arnold, chefe do Estado-Maior da Força Aérea americana, e do conjunto dos chefes de Estado-Maior para aumentar a eficácia das operações com o B-29. Wesley F. Craven e James Lea Cate, historiadores da guerra aérea americana no Pacífico, documentaram que o bombardeio de precisão em grande altitude das indústrias japonesas não estava alcançando os resultados previstos pelo cronograma estratégico geral para derrota do inimigo no Pacífico. Além dos problemas de tempo e das enormes distâncias envolvidas nessas missões, havia o fator de que a maior parte da indústria japonesa estava muito dispersa em oficinas domésticas e pequenas "fábricas-fantasmas" que montavam os produtos dessas oficinas. Imensas e densamente povoadas áreas residenciais de cidades como Tóquio, Kobe, Kawasaki e Nagoya estavam de fato cheias de fábricas de armamentos e aviões em pequena escala mas altamente produtivas. E não havia como os B-29 pudessem bombardear esses alvos usando as técnicas tradicionais de precisão. Antes mesmo de LeMay assumir o cargo, os estrategistas norte-americanos pensaram em passar a realizar ataques incendiários noturnos em baixa altitude às cidades japonesas.

Agora, com LeMay - um líder incansável, testado em combate - no comando dos B-29 nas Marianas, a situação estava pronta para ação decisiva. Ele era um dos mais experientes táticos de bombardeio norte-americanos, tendo liderado o primeiro grupo de Fortalezas Voadoras B-17 da 8ª Força Aérea a bombardear a Europa a partir de bases na Inglaterra entre 1942 e 1944. Em 17 de agosto de 1943, ele voou no B-17 à frente de 146 bombardeiros em uma missão contra a fábrica de rolamentos de esferas em Regensburg, no interior da Alemanha, incursão que perdeu 24 aviões e 240 tripulantes devido à artilharia antiaérea e aos caças. O mastigador de charutos LeMay adquiriu o apelido de "Calças-de-ferro" na imprensa patriótica da época da guerra, mas era conhecido como "Cu-de-Ferro" por muitos dos tripulantes que tinham de segui-lo em combate.

Depois de liderar o XX Comando de Bombardeiros, que voava a partir de bases na China, LeMay foi enviado pelo general Arnold para substituir o general-de-brigada Haywood S. Hansell Jr., que organizara o XXI Comando de Bombardeiros nas Marianas.

Os chefes de Estado-Maior queriam que a indústria de guerra japonesa - em particular a fabricação de aviões - fosse destruída antes de serem tomadas as difíceis decisões finais sobre quando se proceder ou sobre se proceder ou não à invasão do Japão. As guarnições japonesas de ilhas como Tarawa e Palau no Pacífico sul e central ou tinham sido capturadas em duras batalhas ou tinham sido deixadas de lado. O imenso comando combinado de terra e ar do general Douglas MacArthur estava empenhado em prolongado combate para retomar o espalhado arquipélago das Filipinas diante de obstinada e bem comandada resistência japonesa.

Mas divisões e corpos inteiros inimigos tinham sido deixados intactos na Indonésia, na Malaia, na Indochina francesa e em Formosa, bem como no vasto território continental chinês.

Quando LeMay assumiu o XXI Comando de Bombardeiros, o principal impulso estratégico norte-americano ainda era quase que dirigido para o norte através do Pacífico, com a pequena ilha vulcânica de Iwo Jima invadida em 19 de fevereiro de 1945, e a ilha muito maior de Okinawa, nas Ryukyus, prevista para invasão em abril. Iwo Jima, a meio caminho entre as Marianas e o Japão, seria uma base de emergência para os B-29 com problemas e também propiciaria pistas de decolagem para que caças americanos de longo alcance P-51 Mustang acompanhassem Superfortalezas sobre o Japão. Uma vez capturada, Okinawa estava destinada a tornar disponíveis várias bases aéreas para B-24 e bombardeiros americanos de pequeno alcance das Forças Aéreas do Extremo Oriente (a serem depois suplementadas com B-29 e o novo B-32), que se uniriam a aviões com base em porta-aviões de modo a enfraquecer a ilha de Kyushu para a invasão aliada, que estava provisoriamente marcada para 10 de novembro de 1945 com o nome em código de Operação Olympic, parte de um plano mais amplo, Downfall, que incluía a Operação Coronet de invasão da planície de Kanto, perto de Tóquio, em março de 1946.

Mas a liderança da Força Aérea americana defendia fortemente a derrota do Japão por meio apenas do poder aéreo. Quando os ataques de precisão diurnos deixaram de produzir os resultados desejados, porém, a cadeia de comando confiou firmemente em LeMay para que encontrasse uma solução. Ele reavivou antigos planos para uso do B-29 em missões incendiárias noturnas, destinadas a explorar o fato de que as construções na maioria das cidades japonesas eram feitas de madeira ou bambu altamente inflamáveis, mas acrescentou arriscados requintes a esses planos! Se os bombardeiros voassem a altitudes perigosamente baixas - abaixo de 3.000 metros -, suas cargas de combustível poderiam ser reduzidas pelas várias toneladas de gasolina necessárias para subir a uma grande altitude de bombardeio. Além do mais, LeMay decidiu remover três dos artilheiros e a maioria das 8.000 descargas da munição de metralhadora que as Superfortalezas normalmente transportavam em incursões diurnas, deixando armadas apenas as metralhadoras da cauda. Essas providências permitiriam que os B-29 transportassem cargas muito mais pesadas de bombas incendiárias M69 de 225 quilos. Mas, privados de suas defesas e voando bem dentro do alcance de armas japonesas antiaéreas de calibre ainda menor, as perdas de B-29 poderiam ser proibitivas. De fato, os especialistas em artilharia antiaérea do corpo de inteligência de LeMay advertiram-no de que seria "suicídio" enviar B-29 sobre Tóquio ou Osaka a 1.500 metros. Mas LeMay arriscou sua carreira - e a vida de centenas de tripulantes americanos - apostando que esses especialistas estavam errados.

A teoria de LeMay foi testada na noite de 9 para 10 de março de 1945. Ele ordenou que três esquadrões de B-29, totalizando 334 bombardeiros, atacassem a capital japonesa, Tóquio, concentrando-se nos bairros mais densamente povoados da cidade, nas cercanias de importantes alvos industriais. A missão foi liderada por um esquadrão de batedores das Superfortalezas, e cada avião transportava 180 bombas de napalm M47 de 31,5 quilos, destinadas a iniciar incêndios altamente visíveis para marcar pontos de mira. Os bombardeiros que seguiam atrás deles em uma longa formação carregavam cada um cargas de seis toneladas de pequenas bombas incendiárias M69, lançadas em sistemas para saturar mais de "8.000 cartuchos por milha quadrada".

Voando entre 1.500 e 2.800 metros, os B-29 começaram a descarregar suas bombas incendiárias logo depois de meia-noite. A resistência inicial japonesa, sobretudo da artilharia de baixo calibre, foi por fim refreada quando o vento persistente aumentou os incêndios em uma conflagração furiosa, mas não antes de as armas abaterem ou danificarem gravemente quatorze Superfortalezas (quatro das quais conseguiram descer no mar). Os caças foram menos eficazes. Quarenta atacaram a força de bombardeio e tinham sucesso quando os B-29 eram encontrados pelos holofotes.

Mas nenhum dos bombardeiros foi perdido para os caças, provavelmente porque os pilotos japoneses prudentemente evitaram pressionar com seus ataques, em vista do comprovado poder de fogo defensivo dos Bi-ni-ju-ku, ou bikko, como eles chamavam os B-29. Os tripulantes japoneses, naturalmente, não tinham como saber que apenas as armas da cauda do B-29 estavam em funcionamento.

Kenneth P. Werrell descreveu vividamente em Blankets of Fire o bombardeio incendiário de Tóquio. Em bairros como Asakusa, com uma densidade populacional de 135.000 habitantes por 1,6 quilômetro quadrado, as construções de madeira que se amontoavam eram rapidamente consumidas em um incontrolável incêndio. Os aviões americanos lançaram um total de 1.665 toneladas de bombas incendiárias ao longo de três horas. A defesa civil de Tóquio e as equipes de combate a incêndios eram incapazes de conter as chamas, que se arremessavam sobre as barreiras contra fogo preparadas pelas centenas de associações tonarigumi de combate a incêndios das imediações, como prevenção aos reides aéreos. Visto dos bombardeiros, o centro de Tóquio era um agitado mar de fogo. O calor criado pelo incêndio se tornou tão intenso que vários dos B-29 que voavam baixo foram afetados por violentas correntes de ar ascendentes e caíram na cidade em chamas. Os tripulantes dos bombardeiros que atacara, quando os incêndios estavam bem desenvolvidos fizeram vôo cego através de nuvens de irritante fumaça, e o mau cheiro de corpos se queimando invadiu muitos dos aviões. Quase metade dos postos de incêndio e emergência da cidade estava destruída. Centenas de bombeiros e funcionários da defesa civil morreram à medida que mais de quarenta quilômetros quadrados de Tóquio, com quase 270.000 prédios, se queimaram. Aproximadamente um milhão de pessoas ficaram desabrigadas. O número de vítimas civis não tinha precedentes na história da guerra: 83.793 mortos e 40.918 feridos, muitos com queimaduras terríveis. No pânico generalizado causado pelo incêndio, algumas pessoas buscaram refúgio em esgotos e canais, mas o calor era tão intenso que a água nos canais mais rasos ferveu, matando aqueles que tinham para lá fugido.

Isso era a guerra total em sua forma mais brutal. Mas LeMay (e a liderança militar americana a que estava submetido) encarava os ataques como extremamente bem-sucedidos. Não apenas as perdas entre a força de ataque tinham ficado dentro de níveis aceitáveis, como também o grau de destruição tinha superado as expectativas. Com a aprovação dos chefes do Estado-Maior, LeMay ordenou que o XXI Comando de Bombardeiros iniciasse incursões incendiárias noturnas de baixa altitude sobre centros urbanos japoneses. Os B-29 atacaram Nagoya, a terceira maior cidade japonesa e o centro da produção de aeronaves, depois da meia-noite de 12 de março. Nas semanas seguintes, forças com mais de 300 Superfortalezas atacaram repetidamente as maiores cidades japonesas. Os centros industriais e residenciais de Osaka, Kobe e Kawasaki foram duramente atingidos. Quando a chuva ou ventos tranqüilos amorteciam o desejado efeito de incêndio, algumas cidades eram atacadas de novo.

LeMay manteve as defesas aéreas japonesas na dúvida quanto aos armamentos dos B-29 fornecendo em algumas missões munição para as metralhadoras de torre, que as tripulações usavam para atingir holofotes. As seqüências de traçadores de calibre .50 descendo em círculos dos bombardeiros pareciam confirmar que as Superfortalezas permaneciam invencivelmente bem defendidas.

LeMay recebeu carta branca para intensificar a incansável blitz de bombardeio incendiário. Suas forças tinham queimado os centros das maiores áreas urbanas, de modo que ele voltou o XXI Comando de Bombardeiros para cidades secundárias. Mas LeMay também incluiu em sua tática missões de formação diurna para assegurar-se de que as grandes fábricas aeronáuticas sobreviventes estavam destruídas ou paralisadas. Essas missões, no entanto, eram vultosas: uma missão em 14 de maio contra a fábrica de rolamentos da Mitsubishi em Nagoya custou aos americanos dez B-29, e outros 64 foram danificados quando enxames de caças japoneses e intensa artilharia saudaram a força de ataque. A despeito da intensa campanha de bombardeio americana, os cartéis corporativos zaibatsu japoneses, como Mitsubishi, Kawasaki e Nakajima, de algum modo conseguiram produzir mais de 11.000 aviões militares - inclusive quase 5.500 caças - nos primeiros sete meses de 1945. A despeito dos planos dos estrategistas aéreos americanos, era claro que os japoneses não estavam sendo bombardeados numa submissão sem defesa pelas incursões incendiárias noturnas.

Porém, ataques diurnos como a missão de 14 de maio, com B-29 plenamente armados defendendo ferozmente suas formações - os tripulantes americanos afirmaram que houve dezoito caças japoneses destruídos -, serviam para lembrar ao inimigo que a Superfortaleza era um terrível oponente.

Mas os B-29 em missões incendiárias noturnas em geral voavam sem seus artilheiros de direção de tiro central e apenas com 200 descargas para suas metralhadoras de cauda. Se os japoneses soubessem desse segredo, os ataques de caças contra os B-29 que voavam baixo se tornariam muito mais vigorosos. E a manutenção desse segredo era vital para a sobrevivência dos B-29B praticamente desarmados do 315º Esquadrão. Para tal, os aviões do Esquadrão nunca se aproximavam do Japão durante o dia, e o Campo Noroeste estava isolado de soldados inimigos dispersos que podiam transmitir por rádio o segredo para as forças imperiais. Em maio e junho, os bombardeiros de LeMay atacaram o Japão quase todas as noites. Grupos menores de bombardeiros especialmente equipados minaram o mar Interior entre o Sul do Japão e as proximidades dos principais portos japoneses do Pacífico.

Enquanto essa incansável ofensiva aérea continuava, as forças americanas afinal garantiram sua custosa vitória em Iwo Jima. Os fuzileiros navais americanos precisavam de dois meses para aniquilar os defensores japoneses da pequena ilha. As perdas americanas foram terríveis, com mais de 5.500 mortos e 17.000 feridos. Os fuzileiros navais estimaram cerca de 21.000 soldados japoneses mortos, enquanto apenas 216 foram feitos prisioneiros. Mas, quando um regimento do Exército americano assumiu logo após a partida dos fuzileiros navais, os soldados americanos encontraram grupos de japoneses escondidos em cavernas, dos quais mais de 1.600 foram mortos.

Em 4 de março, quando a resistência japonesa ainda era feroz, um B-29 danificado em batalha, ao retornar do Japão com pouco combustível, fez um pouso de emergência no antigo Aeródromo Central Japonês de Iwo Jima, que os membros do batalhão de construção naval trabalhavam desesperadamente para ampliar e pavimentar, de modo a receber com segurança as Superfortalezas. Esse B-29 foi finalmente reparado e voou de volta à sua base nas Marianas. Mas, segundo os historiadores militares Thomas B. Allen e Norman Polmar detalham em seu livro, Code-Name Downfall, The Secret Plan to Invade Japan - And Why Truman Dropped tbe Bomb, tão logo Iwo Jima foi capturada, teve início a longa e ainda mais sangrenta luta por Okinawa. Uma força conjunta de fuzileiros navais e do Exército invadiu a maior ilha das Ryukyus, a exatamente 560 quilômetros da ilha de Kyushu, em 10 de abril de 1945. Os desembarques em si sofreram apenas leve resistência.

Em poucos dias, a verdadeira selvageria começou. Enquanto os fuzileiros navais americanos garantiam a extremidade norte da longa e estreita ilha, as forças do Exército encontraram feroz resistência japonesa proveniente de densas faixas de complexos de cavernas e bunkers ao sul da parte mais estreita de Okinawa. Os japoneses tinham habilmente colocado suas posições defensivas com campos interligados de tiro de metralhadoras, morteiros e artilharia leve e pesada. Tinham amplas reservas de munição, e sua determinação de fazer os americanos pagarem por cada metro de solo sagrado que haviam capturado era tanto corajosa quanto fanática. O grito de batalha do 32º Exército Imperial na defesa da ilha era assustador:

Um Avião por Um Navio de Guerra
Um Barco por Um Navio
Um Homem por Dez Inimigos ou Um Tanque

O comandante japonês, general-de-divisão Mitsuru Ushijima, tinha mais de 70.000 soldados regulares do Exército e da Marinha e havia organizado uma milícia apressadamente treinada, a Boeitia, com cerca de 18.000 estudantes, entre os quais jovens de apenas quatorze anos. Foram organizados em Tekketsu (Sangue e Ferro para os Grupos a Serviço do Imperador), que serviam como unidades de comunicações na linha de frente. As moças recebiam umas poucas horas de treinamento médico básico para cuidar dos feridos, enquanto outros civis trabalhavam em posições defensivas. No total, cerca de 100.000 defensores japoneses enfrentaram um número igual de invasores americanos na ilha, um mau equilíbrio segundo a doutrina militar padrão, que em geral requer pelo menos uma vantagem numérica de três para um na força ofensiva.

E essa não era uma ofensiva terrestre convencional, mas uma operação anfíbia quase equivalente aos primeiros desembarques na Normandia e nas Filipinas em 1944. Cerca de 1.500 navios americanos e britânicos, desde embarcações de desembarque de fundo chato até destróieres e enormes encouraçados, bem como imensos e rápidos porta-aviões capazes de lançar mais de 100 caças, agitavam as águas em torno de Okinawa.

Tendo em vista a relativamente pequena distância entre essa frota e as bases aéreas japonesas em Kyushu e Formosa, era inevitável que o inimigo lançasse um terrível ataque contra a frota aliada. O que tornou esse ataque particularmente violento e eficaz foi o número de aviões camicases envolvidos. Tratava-se dos mísseis humanos de "um avião" a que o grito de guerra do 32º Exército se referia.

Os ataques camicases, em que os pilotos japoneses intencionalmente jogavam seu avião contra navios americanos, tinham começado em outubro de 1944, durante a batalha do golfo de Leyte nas Filipinas. Com falta de aviões e pilotos de combate experientes depois das devastadoras perdas na Batalha do Mar das Filipinas, e cada vez mais bloqueada pelas inexpugnáveis defesas antiaéreas nos navios e caças dos porta-aviões americanos, a Marinha Imperial japonesa organizou os corpos camicases, assim denominados a partir do "Vento Divino", um tufão que destruiu uma frota de invasão mongol que ameaçava o Japão em 1281. Os aviões camicases eram carregados com pelo menos uma bomba e um tanque de gasolina cheio. Em The Last Kamikaze, Edwin P. Hoyt mostrou que a tática japonesa envolvia ataques de mergulho simultâneos por vários aviões em uma tentativa de tornar menos eficaz o fogo antiaéreo inimigo. O grau de dano de um choque camicase dependia do tamanho e da couraça do navio que sofria o golpe. Pequenos porta-aviões de escolta - navios-tanques convertidos com pequenos conveses de vôo - eram especialmente vulneráveis, assim como os destróieres. Mas porta-aviões maiores também sofriam danos graves.

Durante a Segunda Guerra Mundial, os aviões camicases eram em geral encarados como armas primitivas - certamente bárbaras -, nascidas do desespero. De fato, o avião representava a primeira bomba "inteligente" verdadeiramente operacional e efetiva. O que fazia do camicase uma arma devastadora era a sofisticação sem paralelo do seu sistema de orientação: o cérebro humano. Os pilotos camicases eram corajosos e determinados a atingir navios inimigos, e para tal com freqüência atacavam "a partir de qualquer quadrante da bússola" a fim de subjugar as defesas dos navios.

A campanha camicase em Okinawa começou na semana da invasão e continuou em ondas periódicas, não terminando antes de meados de agosto de 1945. No todo, 1.465 aviões camicases atacaram, afundando 21 navios americanos e danificando tão seriamente outros 43 que estes tiveram de ser abandonados. A frota aliada teve mais de 4.000 mortos - e milhares de feridos seriamente, amiúde com queimaduras graves - nesses ataques suicidas. Essa batalha foi a atuação mais sangrenta da história da Marinha americana.

Mas o emprego de aviões camicases não era a única tática suicida que os quartéis-generais imperiais japoneses empregavam para deter o desembarque dos Aliados em Okinawa. Os historiadores Dan van der Vat e William Craig descreveram uma imensa força naval camicase. Em 6 de abril de 1945, uma poderosa força-tarefa da Marinha Imperial, centrada no Yamato, o maior encouraçado do mundo, assim chamado a partir da raça mítica da terra natal dos guerreiros ancestrais, partiu para o sul do mar Interior em direção a Okinawa. Essa "Força de Ataque Especial de Superfície" era composta do Yamato, um cruzador e oito destróieres, todos transportando apenas combustível suficiente para uma viagem de ida a Okinawa. Mas os depósitos dos navios estavam abarrotados com cargas de munição e torpedos. Sua missão era destruir os transportes americanos concentrados e atacar violentamente a cabeça de ponte com as metralhadoras de 18,1 polegadas do Yamato, e então, inevitavelmente, serem destruídos no processo pelos aviões aliados. Submarinos americanos localizaram a força-tarefa que deixava as ilhas metropolitanas e alertaram o grupo de porta-aviões do vice-almirante Raymond A. Spruance. Mais de 300 aviões americanos atacaram sob nuvens baixas e chuva em 7 de abril, antes de os navios alcançarem Okinawa, afundando o Yamato, o cruzador que o acompanhava, Yabagi, e quatro dos destróieres. Mais de 3.500 japoneses morreram.

Apesar dessa vitória naval, a batalha de Okinawa constituiu mau presságio para a planejada invasão Olympic de Kyushu que os aliados fariam em novembro, na qual forças navais americanas concentradas teriam de atuar muito próximo das forças camicases. Além disso, em Okinawa, o combate tinha degenerado em uma guerra de desgaste que lembrava a terrível luta de trincheiras da Primeira Guerra Mundial. Como os regimentos do Exército e de fuzileiros lutavam para abrir caminho para o sul em direção à capital da ilha, Naha, encontraram muitas zonas de defesa em cavernas e bunkers. Mas a defesa inimiga não era meramente estática; em alguns setores muito disputados, os soldados japoneses lançavam violentos contra-ataques quase toda noite para desalojar forças americanas do terreno que tinham capturado a tão grande custo.

No fim da árdua campanha de Okinawa, no final de junho, 12.520 homens das forças terrestres e navais americanas tinham morrido ou desaparecido, o maior índice de vítimas da guerra do Pacífico, um nível de carnificina proporcional ao da Batalha de Bulge seis meses antes na Europa. As vítimas japonesas eram muito numerosas, com quase toda a força combinada regular e paramilitar de 110.000 tendo lutado até a morte ou tendo preferido o suicídio à rendição.

Depois do brutal castigo que os camicases infligiram à frota aliada em Okinawa, a destruição dos alvos de combustível japoneses tornou-se ainda mais crucial por razões óbvias: os aviões suicidas precisavam de gasolina e lubrificantes para atuar. Se os Aliados iam desencadear a Operação Olympic do plano Downfall de invasão de Kyushu - com o dia X programado para novembro de 1945, e a Operação Coronet, ainda maior, de invasão de Honshu, marcada para a primavera de 1946 -, era essencial que os japoneses fossem privados de combustível para operar a frota de aviões camicases que os relatos da inteligência estimavam estar se reunindo para repelir essas invasões. O presidente da junta de chefes de Estado-Maior, general-de-exército George C. Marshall, estava particularmente preocupado com o aumento do número de "aviões suicidas" antes da invasão americana do Japão. Suas preocupações eram justificadas: a inteligência americana estimava que em meados do verão de 1945, os japoneses tivessem transformado até 8.000 aviões em camicases, dispersando-os amplamente por pequenas pistas de pouso camufladas de grama, por cavernas e por hangares subterrâneos em Honshu e Kyushu, e estavam ativamente treinando jovens pilotos para pilotá-los. A inteligência acertara quanto à dispersão dos aviões; o Japão estava construindo febrilmente aeródromos "fortalezas" pelo país.

Em agosto de 1945, o número de aviões suicidas era na verdade muito mais elevado do que o que os Aliados estimavam: o Exército e a Marinha imperiais japoneses tinham, cada um, 5.000 aviões camicases preparados para repelir a invasão. Um meio de avaliar o potencial destrutivo dessa força para a frota aliada operando perto do Japão é a lembrança de que somente algumas centenas de caças japoneses convencionais tinham virtualmente desmantelado a frota americana do Pacífico em Pearl Harbor em menos de duas horas.

Ademais, os planejadores americanos perceberam que a resistência japonesa à Operação Olympic em terra e no mar seria ainda mais violenta do que a defesa fanática de Okinawa. De fato, à medida que o Japão entrava no último verão da guerra defrontando a perspectiva de invasão estrangeira das sagradas ilhas metropolitanas no outono, o sombrio slogan "Cem Milhões Morrem Juntos" tornara-se cada vez mais um grito de reagrupamento.

Fonte deste artigo: Smith, Jim B.; McConnell, Malcolm. A última missão. Imago.

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O primeiro B-29 danificado a pousar em Iwo Jima


Tóquio devastada pelos bombardeios incendiários


Tóquio arde em chamas após um ataque incendiário


O General Curtis LeMay, arquiteto do plano de bombardeio incendi


Desembarque norte-americano em Okinawa