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Tirailleurs Senegalais
História das tropas coloniais senegalesas no exército Francês

De 1905 em diante, a França, a única entre as grandes potências, adotou a doutrina militar prevendo o uso de tropas coloniais em todos os pontos de seu império. Desta forma, regimentos de Tirailleurs Senegalais serviram nos exércitos franceses da conquista do Marrocos (1907-1912) até o cerco de Dienbienphu (1953-1954). Na 2ª Guerra Mundial, as forças que combateram sob o General Leclerc no Norte da África e na Itália eram em grande parte formados por africanos, incluindo marroquinos. Africanos compunham mais de metade das tropas francesas que desembarcaram na França Meridional em agosto de 1944. Mas a maior contribuição dos Tirailleurs Senegalais aconteceu durante a Primeira Guerra Mundial, quando mais de 200.000 deles foram mobilizados para o serviço militar, principalmente na Frente Ocidental.

A história dos Tirailleurs Senegalais

Os Tirailleurs (nome normalmente traduzido como fuzileiros) foram criados em 1857 por Louis Faidherbe, governador geral da África Ocidental Francesa. Faidherbe acreditava que os Africanos poderiam ser treinados para se tornar soldados combatentes eficazes. Para esse fim, prometeu à seus homens novos uniformes, maior pagamento e a oportunidade de saque, todos sendo, sabidamente, poderosos incentivos. Olhando a situação por outro ângulo, é claro que Faidherbe praticamente não tinha opções, a não ser se voltar para o potencial humano africano. Tropas metropolitanas francesas não tinham um bom desempenho na África tropical: sucumbiam as centenas à malária, febre das águas negras e outras doenças tropicais, para as quais os africanos tinham uma resistência natural.

De 1857 até 1905, os regimentos de Tirailleurs eram compostos principalmente de escravos e de outras pessoas provenientes dos estratos mais baixos da sociedade. Sob o sistema rachat [1], os franceses compravam escravos de seus mestres africanos e os transformavam em soldados, sob o comando de oficiais franceses. Por volta de 1882 o sistema rachat foi modificado. Enquanto os pagamentos à senhores de escravos continuaram, os franceses passaram a depender mais da incorporação de prisioneiros de guerra e de carregadores, assim como de mercenários voluntários. Para o final do século XIX, membros da tradicional classe governante começaram a se apresentar cada vez mais para servir como graduados e oficiais subalternos. A medida que a conquista da África avançava, soldados africanos derrotados se tornaram uma importante fonte de recrutas. Para os soldados do lado perdedor, se apresentar como voluntários muitas vezes era uma questão de sobrevivência. Particularmente, os filhos da influente classe mercante africana nunca se apresentaram em números significativos.

Raças de um Regimento de Tirailleurs.

Também iniciando na última década do século XIX, os Franceses começaram a depender pesadamente em certos grupos étnicos, principalmente os bambara do atual Mali (antigamente, o Sudão Francês), os Tucolor e os grupos étnicos de língua Tirailleurs somente depois de 1919, quando o recrutamento obrigatório de tempo de paz foi ampliado. Refletindo o domínio dos bambara entre os vários grupos étnicos alistados nos exércitos africanos dos franceses, o bambara, junto com o francês pidgin se tornou a língua de comando nos regimentos de Tirailleurs.

Crescimento rápido nos primeiros anos do século XX)

Depois de 1905, a força de Tirailleurs cresceu rapidamente como resultado de cambiantes condições militares e políticas na África francesa e na Europa, assim como devido a uma grande mudança na doutrina militar francesa. Cinco pontos chaves estavam em ação:

- Eram necessárias tropas de ocupação para policiar e administrar o vasto território africano, muitas vezes maior do que a França metropolitana;

- A conquista da África Ocidental não estava terminada; muitos bolsões de resistência permaneciam. De fato, a França não considerou que a Mauritânia estivesse pacificada até meados da década de 1930. A luta continuou no Marrocos ao longo de toda a década de 1920;

- Tropas de guarnição eram necessárias para manejar pontos fortes permanentes ao longo da África.

- Se tomou a decisão de usar regimentos de Tirailleurs fora da África Ocidental, inicialmente na conquista do Marrocos, onde os Tirailleurs compuseram de 9 a 15 porcento das forças francesas.

Finalmente, e mais importante, a França necessitava desesperadamente de potencial humano para enfrentar a ameaça de um número maior e de crescimento mais rápido de recrutas alemães para o serviço militar.

Charles Mangin e "La Force Noire"

Muitos eminentes oficiais generais franceses do período da Primeira Guerra Mundial serviram como oficiais subalternos e superiores em regimentos de Tirailleurs e passaram a admirar a habilidade dessa infantaria ligeira [2]. Entre esses estavam o Marechal Joffre; Gallieni, o herói do Marne e Charles Mangin, comandante do Sexto Exército na desastrosa ofensiva de 1917 de Neville.

Em 1910, Magin escreveu um livro intitulado La Force Noire defendendo que a África era uma fonte quase inexaurível de potencial humano e que os africanos eram ideais para o serviço militar. Mangin defendia que, em termos culturais, os africanos não tinham sido "corrompidos" pelo duro trabalho nas fazendas ou nas fábricas. Racialmente, ele dizia, os africanos tinham um sistema nervoso menos desenvolvido e eram, portanto, menos sensíveis a dor. A França, desesperada por pessoal para fazer frente ao mais numeroso exército alemão, abraçou de forma acrítica as teorias de Mangin.

As teorias de Mangin não eram somente bobagem, mas ele também errou nos seus estudos demográficos. A realidade era que a África Ocidental era esparçamente habitada e na verdade sofria de carências de trabalhadores, por causa dos esforços dos administradores em construir obras de infra-estrutura, como estradas, portos e ferrovias. De fato, por volta de 1912 a África Ocidental Francesa estava tendo dificuldade em suprir mesmo 5.000 recrutas por ano, somente metade da prometida colheita de soldados de Mangin. O resultado dessa seca no recrutamento foi a imposição, em 1912, do recrutamento militar obrigatório nos territórios da África Ocidental Francesa. Apesar disso ser um retrocesso para o esquema de Mangin, ela serviu de base para as imensas levas do período de guerra que logo se seguiu.

Uma vista da África Ocidental Francesa em 1914

As vésperas da Grande Guerra, as guerras de conquista na África estavam minguando, apesar das operações de "pacificação" continuarem e terem continuado por pelo menos mais duas décadas. Numa região ainda sofrendo de exaustão depois de 30 anos ou mais de guerra mais ou menos contínua, as exigências dos colonizadores estavam se tornando cada vez mais onerosas. Impostos per capita cresciam rapidamente, os administradores coloniais franceses exigiam trabalhos em corvéia para estradas e a prática de plantações de exportação compulsórias se expandia. De 1911 até 1913, os preços para as colheitas de borracha e outras mercadorias entraram em colapso. Secas e fome em 1913 e 1914 forçaram as tribos do Saara para o sul, onde entraram em conflito com os povos da floresta. Ao mesmo tempo, a França não se preocupou em financiar a assistência médica e educação.

Os Tirailleurs na frente Ocidental.

Em 1914 havia 14.000 Tirailleurs Senegalais na África Ocidental Francesa. Somando-se a esses, outros 15.000 estavam estacionados fora da região, principalmente no Marrocos. Seis batalhões foram imediatamente enviados para a França quando da mobilização. Os Tirailleurs foram engajados nas linhas de frente desde o começo. Nas semanas iniciais da Guerra, quatro batalhões de Tirailleurs sofreram pesadas baixas no rio Yser, em Dixmude, mas defenderam e mantiveram os trechos da linha de frente à seu encargo, durante o que três de cada quatro africanos foram feridos ou mortos.

Em outubro de 1915, 30.000 novos conscritos e voluntários tinham sido recrutados para a Frente Ocidental. Um decreto de 9 de outubro de 1915 determinava a mobilização de africanos com mais de 18 anos de idade e autorizava um bônus de 200 francos para os voluntários. Sob esse decreto, um número adicional de 51.000 africanos foi recrutado em 1916, No ano seguinte, dezessete batalhões de Tirailleurs estavam engajados no Somme. Nessa época, 120.000 africanos estavam servindo nas forças francesas. Em 1918, batalhões de Tirailleurs serviram com o Primeiro Exército Americano nas campanhas de St. Mihiel e Meuse-Argonne.

Em 1917, a França, em desespero por mais pessoal e no meio de uma onda de motins no exército, arriscou a maior leva de recrutamento na África: 50.000 homens. O governador-geral francês em Dakar pediu demissão em desgosto. Ele e muitos homens de negócio residentes, previram que os africanos iriam se revoltar. Outros, entretanto, viram isso como uma oportunidade de levar adiante os interesses dos súditos africanos dos franceses.

Blaise Daigne, um deputado eleito pelo Senegal para a Assembléia Nacional francesa, assumiu como Comissário Geral para recrutamento e usou seu prestígio para levantar 60.000 homens, virtualmente sem resistência [3]. Nisso, foi auxiliado por um decreto francês de janeiro de 1918, oferecendo vantagens, inclusive isenções de impostos, pensões para famílias, reserva de mercado de trabalho para veteranos que voltassem e a cidadania, sob certas condições.

Como a guerra mudou os Tirailleurs

O sucesso de Daigne em recrutar os africanos para o exército francês fez com que o premier Clemenceu estendesse o recrutamento obrigatório ao período de paz. A força de Tirailleurs Senegalais surgiu da Guerra ligeiramente maior do que tinha sido em 1912.

Mais importante, mudou de um exército essencialmente mercenário para um exército de conscritos. E, ao contrário das tropas metropolitanas, muitos recrutas Tirailleurs não foram desmobilizados em 1919, mas permaneceram como tropas de ocupação na Alemanha e como guarnições em um crescido império colonial francês.

Mitos e anti-mitos: como os africanos se portaram em combate?

Enquanto a imprensa francesa se entusiasmava com a bravura africana, propagandistas alemães acusaram os Tirailleurs de atrocidades. Alguns elementos franceses também cultivavam essa imagem e isso se refletiu amplamente na literatura de pós-guerra. O marechal de campo Haig era particularmente vociferante nesse aspecto. A experiência dos ingleses com as tropas do exército indiano na Frente Ocidental não foi boa. Tropas indianas só foram empregadas lá brevemente e tiveram uma alta proporção de auto-mutilações. Algumas unidades indianas se amotinaram quando souberam que seriam enviadas para fora do subcontinente. Ao contrário das tropas coloniais francesas, não lhes tinha sido dito que deveriam esperar servirem em qualquer lugar do mundo e nunca se esperou que servissem na Europa. E na Segunda Guerra Mundial elas não o fizeram, enquanto tropas francesas serviram de novo na Frente Ocidental.

Dadas essas imagens conflitantes, o historiador deve avaliar a performance dos Tirailleurs com base em tais critérios como moral, como se comportaram em combate e como eram vistos pelo inimigo.

Houve ocasiões em que supostamente os Tirailleurs tiveram maus resultados. Tropas africanas inexperientes no flanco de um batalhão canadense entraram em pânico e fugiram durante o primeiro ataque de gás dos alemães, em 15 de abril de 1915. O estudo de Alistair Home sobre Verdun constatou que as tropas da 27ª Divisão de Infantaria Colonial tiveram uma performance deficiente. De fato, essa divisão foi enviada para Verdun sem seu quadro completo de oficiais e para uma seção da linha sem trincheiras preparadas. E, no Chemin des Dames (Segunda Batalha do Aisne), houve alegações de pânico entre elementos do 2º Corpo Colonial. Mas não há provas que unidades de Tirailleurs tenham participado nos grandes motins causados pela fracassada ofensiva de Neville de 1917. De fato, várias fontes indicam que as tropas africanas foram amplamente usadas em setores onde tropas metropolitanas amotinadas se recusavam a servir.

Depois do Armistício, a imprensa alemã qualificou a previsão de tropas africanas serem parte da força de ocupação da Renânia como "A Vergonha Negra". Obviamente, o governo francês se sentiu sob pressão para desmobilizar tantas tropas metropolitanas quanto possível, enquanto os africanos não tinham eleitorado e podiam ser mantidos em armas (naturalmente, havia o forte desejo de humilhar o boche).

Alguns oficiais franceses se opuseram aos esforços de Mangin de elevar os soldados africanos a uma posição de liderança entre as tropas do império. Argumentavam que os marroquino eram superiores. Um deles, General de Torcy, notou que os Tirailleurs eram de utilidade duvidosa em climas frios, tais como os do noroeste da França. De fato, a prática de invernar, de retirar as tropas africanas da linha e as enviar para o sul da França durante os meses de inverno, pareceria justificar essa acusação. Também havia algumas críticas sobre a performance de regimentos mistos de africanos e metropolitanos (com um batalhão francês e dois de Tirailleurs ) na campanha de Gallipoli. Ainda assim, os franceses mantiveram essa prática em 1939 e 1940.

De qualquer forma, o mito da selvajaria africana conseguiu impressionar os soldados alemães. "Há africanos na frente?" era uma pergunta familiar, feita por soldados alemães substituindo camaradas nas trincheiras. O capitão de fuzileiros navais norte-americanos, John W. Thomason Jr. elogiou muito a habilidade e selvajaria dos senegaleses em seu celebrado livro Fix Bayonets! Thomason deveria saber do que escrevia, pois sua unidade serviu com a 1ª Divisão Marroquina na batalha de Soissons, em 1918.

No todo, entretanto, as tropas africanas francesas não eram melhores ou piores do que qualquer outros soldados na Frente Ocidental. Sua performance em combate dependia de variáveis, como liderança, treinamento e motivação e não de sua etnia ou raça. Contudo, isso era então (e ainda é) válido para todos os soldados.

A conta do açogueiro

Dos 212.000 súditos africanos dos franceses que foram recrutados durante a 1ª Guerra Mundial, 163.000 serviram na Frente Ocidental. Destes, perto de 30.000 morreram pela França. Apenas no ano de 1918 sessenta mil africanos se juntaram as fileiras. Somente a Mauritânia e a Nigéria deixaram de contribuir. As fatalidades entre as unidades de Tirailleurs foram numa razão de 185 por milhar. O número de mortos nas unidades metropolitanas francesas foi ligeiramente maior: 200 por milhar dos 1,3 milhões de mortos entre os cinco milhões de franceses em armas [4].

A África Ocidental francesa de pós-guerra: nacionalismo postergado

De forma geral, os franceses mantiveram sua promessa de reserva de mercado de trabalho para os veteranos africanos que retornaram. Salões especiais foram criados, nos quais os veteranos podiam se encontrar e socializar. Os administradores coloniais franceses procuraram usar os veteranos como um grupo intermediário para apoiar a administração colonial. Infelizmente, ao grande recrutamento na zona de florestas muitas vezes destruiu as relações sociais tradicionais, na medida em que os veteranos ao retornar com suas pensões e empregos reservados muitas vezes ascendiam até o nível de seus líderes tradicionais, chegando mesmo a ficar acima deles.

Entretanto, a 1ª Guerra Mundial não resultou no crescimento do nacionalismo africano com ocorreria após a 2ª Guerra. A França, no final das contas, estava entre os vencedores de 1918 e rapidamente se moveu para melhorar os serviços públicos nas suas colônias e mandatos africanos. Foi somente depois da 2ª Guerra, que viu a derrota da França e o ideal de Woodrow Wilson, da autodeterminação dos povos, em que o nacionalismo africano subiu até a superfície como um movimento político articulado.

Leonard Shurtleff é um membro da Sociedade da Grande Guerra e Presidente da Associação da Frente Ocidental. Até se aposentar do serviço diplomático ameriano em 1995, se especializou em assuntos africanos. Esta é uma versão ligeiramente expandida de um artigo que apareceu no volume do inverno de 1995 da revista RELEVANCE: The Quarterly Journal of the Great War Society.

Notas:

1. Recompra, do verbo francês acheter, comprar.
2. O serviço no Exército Colonial era popular entre os oficiais de classe média com poucos ou nenhuns meios próprios. O risco à saúde era real, mas as promoções eram mais rápidas e os custos de vida menores do que na metrópole.
3. Entre 1872 e 1887, a França deu a cidadania aos habitantes de quatro comunas senegalesas: Dakar, Goree, Rufisque e St. Louis. Blaise Daigne era o principal líder político desses cidadãos africanos da França.
4. Os corpos de exército franceses normalmente continham uma mistura de tropas metropolitanas e coloniais. Por exemplo, o II Corpo de Infantaria Colonial normalmente recebia a missão de comandar tropas metropolitanas francesas. Da mesma forma, a Primeira Divisão Marroquina teve batalhões de Tirailleurs sob seu comando de tempos em tempos.

Fontes:

- Echenberg, Myron. Colonial Conscripts The Tirailleurs Senegalais in French West Africa, 185 7-1960. Portsmouth, N.H: Heinemann, 1991.
- White, Dorothy Shipley. De Gaulle and Black Africa: From the French Empire to Independence. Pennsylvania State University Press, 1979
- Suret-Canale, Jean French Colonization in Tropical Africa (translated by Till Gottheimer). New York: Pica Press, 1971.
- Thomason, John W. Jr. Fix Bayonets! Annapolis: Naval Institute Press, 1994. First published in 1926, this is a fictionalized account of the author's First Marine Brigade experiences in World War I.
- Greenhut, Jeffery. The Indian Army in France, a paper presented at the 26 March 1993 meeting of the East Coast Branch of the Western Front Association-U.S.A.

Contributed by Leonard G. Shurtleff
President of the Western Front Association - U. S. Branch

Fonte deste artigo: http://www.worldwar1.com/france/tseng.htm

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Tirailleurs combatem na Argélia, 1908


Couraceiros e Tirailleurs em 1914


Senegaleses lutam na Bélgica, 1914


Insígnia do 4o Regimento de Senegaleses


Capitão Charles NTchorere