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A questão Gibraltar
Os planos da Operação Félix e os meandros da estratégia alemã de atuação no Mediterrâneo em relação à Espanha e ao rochedo.

Do ponto de vista naval, nenhum país da Europa possui posição estratégica mais importante do que a Espanha. Através dos seus portos e ilhas oceânicas, ela controla as rotas do sudoeste do continente. Ela possui uma grande costa no Mediterrâneo ocidental, tendo em frente as Baleares, que cortam as rotas norte-sul. Enfim, a Espanha pode neutralizar Gibraltar e interditar o estreito. Assim, a amizade, ou pelo menos a neutralidade da Espanha, são capitais para a França e Grã-Bretanha.

A 17 de setembro de 1940, Hitler decidiu adiar sine die a invasão da Inglaterra. A 23 de outubro, ele encontrou-se com Franco em Hendaye. Segundo documentos alemães caídos em poder dos americanos, Franco prometera a Hitler entrar na guerra do lado do Eixo, mas sob condição de o fazer em data de sua escolha e ainda apresentou pretensões que o Führer julgou excessivas. Em 18 de novembro, Serrano Suñer, então Ministro das Relações Exteriores da Espanha, foi chamado a Berchtesgaden. Antes de deixar Madri, Suñer reuniu-se com Franco e os chefes militares, tendo todos concordado que se deveria evitar a todo o custa a entrada na guerra. Em Berchtesgaden, Hitler anunciou ao ministro espanhol sua decisão de atacar Gibraltar. "Minha operação está minuciosamente preparada. Das 230 Divisões alemãs, 186 estão atualmente inativas". Suñer compreendeu a ameaça contida naquelas palavras, mas fez ver que a tomada de Gibraltar pouco valeria se Suez permanecesse nas mãos dos ingleses. Além disso, a Espanha não estava preparada e seria melhor que o Eixo tomasse Suez. Suñer conseguiu deixar de dar uma aquisciência imediata e precisa. A 7 de dezembro, o Almirante Canaris, chefe do serviço de informações alemão, uma das figuras mais estranhas da guerra, foi a Madri insistir novamente junto a Franco, que mais uma vez se evadiu.

Em 12 de novembro, Hitler havia assinado a diretiva nº 18, que fixava a conduta geral da guerra e previa o ataque a Gibraltar, e que se chamava, em código, "Operação Félix":

"a. Gibraltar será tomada e o Estreito fechado.
b. Os ingleses serão impedidos de tomar uma cabeça de ponte na península Ibérica e nas ilhas do Atlântico. Estas, sobretudo as Canárias e as do Cabo Verde, terão grande importância após a ocupação de Gibraltar. Os comandantes-em-chefe da Marinha e da Aviação devem estudar os meios de reforçar a defesa espanhola das Canárias e a possibilidade de ocupar as do Cabo Verde. A questão da ocupação da Madeira e dos Açores também deve ser estudada; o resultado desses estudos ser-me-á submetido logo que possível.

Assinado: Adolf Hitler"

Vê-se que a neutralidade de Portugal não embaraçava o Führer. A operação seria realizada com a participação secundária dos espanhóis, mas sem o concurso das forças italianas. A primeira ação para a conquista da fortaleza caberia à aviação e às tropas pára-quedistas. A marinha se limitaria, a princípio, a atacar com submarinos os navios britânicos que evacuassem o porto; sua ação seria mais importante posteriormente, na defesa do estreito e para a conquista das ilhas. Raeder, comandante-em-chefe da marinha alemã, julgava indispensável a utilização do porto de Dacar para dominar as ilhas do Cabo Verde.

A conquista das ilhas portuguesas de Madeira, Açores e Cabo Verde era incerta. Keitel, Chefe do Estado-Maior da O.K.W., achava que os ingleses instalar-se-iam nessas ilhas tão logo começasse o ataque a Gibraltar e que toda a operação de conquista perderia a maior parte de seu valor, já que a posse das ilhas permitiria à Grã-Bretanha compensar a ameaça que a perda de Gibraltar significava para as suas comunicações.
Tal argumento tinha grande peso, porém, mesmo que a Alemanha não se apoderasse das ilhas, a conquista de Gibraltar interditaria à Grã-Bretanha o acesso ao Mediterrâneo pelo Atlântico e era provável que tal empresa tivesse êxito.

Sem dúvida, o Rochedo resistiria valentemente, porém, mesmo que os alemães não conseguissem conquistá-lo, tornariam inutilizáveis o porto e o aeródromo da Baía de Algeciras. Assim, estando os ingleses muito fracos, não poderiam conquistar em território espanhol espaço suficiente para novo aeródromo para a fortaleza. Gibraltar neutralizado, e de posse de Algeciras, Ceuta e Tanger (que Franco ocupara no começo de novembro), o Eixo seria senhor do estreito.

A África do Norte francesa perdia assim sua importância. Contudo, as tergiversações de Franco retardaram a execução do plano. A 11 de dezembro, obedecendo a instruções de Hitler, Keitel deu a seguinte ordem: "a operação 'Félix' não será realizada, uma vez que as condições políticas desejadas ainda não foram alcançadas. Os estudos prosseguirão... a preparação será adiada".

Em 31 de dezembro, Hitler escreveu a Mussolini: "Todos os nossos dispositivos estavam prontos para entrar na Espanha a 10 de janeiro e atacar Gibraltar no começo de fevereiro. Estou bastante aborrecido com a decisão de Franco, que não corresponde à ajuda que nós - vós, Duce, e eu - lhe demos quando ele estava em apuros”.

Foi, portanto, a má vontade do Governo espanhol que impediu a realização do plano. O Eixo, entretanto, não renunciou a ele definitivamente, mas a partir de meados do inverno de 1940-41, sua execução tornou-se mais difícil. Em 8 de fevereiro, o alto comando emitia uma nota: "Torna-se claro que, em vista das operações 'Marita' e 'Barba-Roxa' (invasões da Grécia e da Rússia), as tropas reservadas para a operação 'Félix' deverão ser empregadas nos novos empreendimentos”. Após haver perdido a oportunidade de dominar o Mediterrâneo ocidental pela África do Norte francesa, por ocasião do armistício, a Alemanha perde a segunda oportunidade no fim de 1940, deixando de tomar Gibraltar. Mussolini dirá mais tarde que "era preciso passar pela Espanha com ou sem o consentimento dos espanhóis”.

Por que Hitler não o fez? Repugnância de violentar um país amigo; temor de ver ressurgir a guerrilha e cometer o mesmo erro de Napoleão; falta de clarividência; enfim, todas estas razões estavam em jogo. Para a estupefação de muitos chefes militares: em particular os oficiais de marinha, as tropas alemãs que haviam vindo até Hendaye não atravessaram a fronteira, e a pequena vila espanhola de La Linea, ao sopé de Gibraltar, cuja destruição total podia ser esperada, passou a guerra sem receber um arranhão.

A questão de Gibraltar era apenas um aspecto do problema mediterrâneo que dividiu por muito tempo o alto comando alemão. Diz-se constantemente que os alemães têm mentalidade exclusivamente terrestre, que eles compreendem mal as questões navais, que não perceberam a importância do Mediterrâneo e que aí estão as principais razões de sua derrota. Tal opinião é, talvez, excessivamente rigorosa. É bastante evidente que o alto estado-maior alemão, que desde o começo da guerra devia lutar contra poderosas forças de terra, não podia ver as questões militares sob o mesmo ângulo que o Almirantado britânico.

O grande erro de Hitler foi subestimar as dificuldades do ataque à União Soviética, e isto não foi um erro de estratégia naval, mas de estratégia terrestre. Foi com grandes apreensões que os chefes militares seguiram Hitler contra a U. R. S. S. Sem conhecer plenamente o poderio do Exército soviético, eles tinham a fobia, por tradição, da guerra em duas frentes. E, após o revide sofrido pela Luftwaffe na Batalha da Inglaterra muitos dentre eles voltaram-se para o Mediterrâneo. Goering tinha projetos grandiosos: invasão da Espanha, do Marrocos, depois a conquista de Dacar; invasão dos Bálcãs e da Ásia Menor pela Turquia; invasão do Egito pela Tripolitânia.

O Grande Almirante Raeder, que se opôs freqüentemente a Goering durante a guerra em questões de tática, tinha as mesmas idéias sobre a orientação da estratégia geral. Ele estava convencido de que a União Soviética não ousaria atacar a Alemanha e que, ao contrário os Estados Unidos entrariam na guerra para sustentar a Grã-Bretanha. Por isso, achava necessário resolver-se primeiro a questão do Mediterrâneo, antes de se haverem com os americanos. Por ele, era preciso tomar-se Suez e de lá mandar a Esquadra italiana operar no Oceano Índico. Era necessário também garantir Gibraltar e depois Dacar, este último ponto, tanto quanto possível, com o concurso da França. De Dacar, se ameaçaria o continente americano, o que obrigaria os Estados Unidos a empregarem defensivamente uma parte dos recursos que destinariam à Grã-Bretanha.

Vê-se, portanto, que as questões navais não eram negligenciadas pelos grandes chefes alemães. Raeder acreditava mesmo que, se a Alemanha dominasse o Mediterrâneo, a questão russa se apresentaria de modo diferente. Hitler pensava, no entanto, e com alguma razão, que se ele pusesse a União Soviética fora de combate, toda a questão mediterrânea e a da guerra contra a Grã-Bretanha seriam completamente transformadas. O problema se resumia em decidir a quem abater primeiro, se a Grã-Bretanha ou a União Soviética. Hitler escolheu a segunda solução e, segundo Raeder, desde 1937 ele havia decidido rechaçar a U.R. S. S. para fora do Báltico. Porém, mesmo decidindo atacar a União Soviética, o Eixo tinha tempo, antes de junho de 1941, para liquidar Gibraltar, e isto representaria uma forte garantia. Mas, a Alemanha não intervirá no Mediterrâneo durante o ano de 1940. Ela o fará no ano seguinte, sem plano estratégico ofensivo de longo alcance, apenas para socorrer seu aliado enfraquecido e garantir o flanco sul de suas forças. Na primavera de 1942, Hitler decidirá intervir com uma ofensiva de grande amplitude: a conquista de Suez. Então, ele terá como inimigos a Grã-Bretanha, a União Soviética e os Estados Unidos e será tarde demais. Suez não será alcançado, enquanto que a oeste os erros do armistício com a França não serão reparados e Gibraltar permanecerá aberto.

Fonte deste artigo: A guerra aeronaval no Mediterrâneo, 1939-1945 - R. de Belot - Record

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A rede de túneis do rochedo de Gibraltar


Adolf Hitler e Francisco Franco em Hendaye


Guarnição britânica no topo do rochedo


Hitler junto ao Almirante Raeder e Keitel


Spitfires no aeródromo de Gibraltar


Tanque britânico na costa de Gibraltar