WAFFEN-SS
Histórico das formação e atividades das Waffen-SS, as unidades de combate de Himmler.
Aqui não há espaço para um exame detalhado da história do Nazismo nos anos 20-30; ela envolve muitos grupos e pessoas diversas que, de forma alguma, foram todas instrumentos subservientes de Adolf Hitler. A mais importante das organizações foi a organização voluntária de tempo parcial conhecida como Sturmabteilungen, ou SA – conhecidos como “camisas-pardas” ou “tropas de assalto”. Eram descendentes diretos do movimento Freikorps de 1918-1921. Seu líder era Ernst Röhm, ao mesmo tempo aliado e rival de Hitler; por volta de 1929, o seu número de membros subia a mais de um quarto de milhão. No início dos anos 20, um pequeno grupo foi formado dentro das SA, para a servir como guarda-costas pessoais de Hitler; originalmente conhecido como “Stosstruppe Adolf Hitler”, mais tarde tornou-se “Schutzstaffeln”, Esquadras de Proteção, as SS. Dispersas por toda a Alemanha, as SS não tinham mais de 280 membros em 1929, e careciam de independência, função ou identidade. Neste ano, uma nulidade incolor chamada Heinrich Himmler recebeu o comando das SS, principalmente porque era considerado totalmente “seguro”.
O amálgama das várias facções dentro do movimento nazista, e a rápida penetração nas várias agências de polícia, resultou numa considerável expansão das SS nos próximos cinco anos; havia mais de 30 mil membros por volta de 1933, contra um número de SA de mais de 3 milhões. Em junho de 1934, os objetivos diversos de Röhm e Hitler levaram as duas principais facções nazistas a um confronto letal. No dia 30 deste mês – “A Noite das Longas Facas” – Röhm e seus líderes SA foram detidos e executados. Além de várias unidades do Exército e de polícia que desempenharam um papel de apoio no esmagamento do suposto golpe, as SS forneceram os verdadeiros assassinos: pois, passo-a-passo, agora reuniam três batalhões de policiais militarizados bem-armados, treinados, disciplinados e de tempo integral.
O período 1934-1939 presenciou o crescimento das SS, ao assumirem a responsabilidade pelo trabalho de polícia política, e estenderem seus tentáculos em muitas outras áreas pertencentes ao Estado alemão e ao Partido Nazista. No início da guerra, já era impossível definir com clareza o papel dentro do Estado desta enorme organização. Além do controle direto, as SS usavam do sistema de fornecer patentes à funcionários em muitas repartições e instituições governamentais e semi-governamentais, aumentando de facto a influência das SS sobre áreas da administração sobre as quais elas não tinham poderes de jure.
Até 1933 não havia ramos oficialmente reconhecidos das SS, todos seus membros sendo considerados das Allgemeine-SS (SS-Gerais, corpo burocrático de tempo parcial). Depois de obter reconhecimento oficial para seus ramos especializados, isto é, o SD (Sicherheitsdienst, ou Serviço de Segurança das SS), apenas os membros não anexados a estes foram considerados integrantes das Allgemeine-SS. Um punhado de soldados armados havia sido mantido disponível para propósitos cerimoniais e de segurança. Designados SS Verfügungstruppen (Tropas de Prontidão das SS), esta tropa armada cresceu lentamente durante os anos pré-guerra. Incluída nesta Verfügungstruppen estava a guarda pessoal de Hitler, o Stabswache, sob o comando de Sepp Dietrich. Outro grupo de membros armados das SS formou-se no final de 1933, os SS Totenkopfverbände (Destacamentos da Caveira das SS). A primeira destas unidades havia sido comandada pelo repugnante SS Standartenführer Theodor Eicke, sua função – guardar os campos de concentração. Eicke depois do expurgo das SA, foi apontado Inspetor dos Campos de Concentração e Comandante dos Destacamentos da Caveira. Isto foi uma recompensa por seu papel durante o expurgo. Os próprios Totenkopfverbände foram recompensados (eles forneceram parte dos pelotões de fuzilamento) ao serem removidos do controle das Allgemeine-SS, e terem seu tamanho expandido.
Em 17 de março de 1933, Dietrich havia estabelecido um destacamento armado especial de 120 homens das SS selecionados, o Stabswache. Assim, pela terceira vez dentro de um espaço de 10 anos, Hitler criava um grupo, possuidor de superiores qualidades, para sua proteção pessoal. Em setembro, durante a reunião do NSDAP, Hitler recompensou o Stabswache com o título oficial de Leibstandarte SS “Adolf Hitler” (Regimento de Guardas das SS). Em 9 de novembro, décimo aniversário do “Putsch” de Munique, o Leibstandarte SS fez um juramento que o ligava incondicionalmente a figura pessoal do Führer, efetivamente removendo-o do controle direto de Himmler e do NSDAP, tornando-o a nova Guarda Pretoriana de Hitler.
A 16 de março de 1935, Hitler anunciou a intenção de reintroduzir o recrutamento militar, e de que o Exército deveria atingir o total de 36 divisões. O último vestígio do Tratado de Versalhes havia sido descartado em nível oficial. Outra ordem atribuída nesta data destinava-se a transformar a SS Verfügungstruppe numa unidade plenamente militar, a fim de servir como núcleo de uma divisão SS. A existência de tal grupo causou muitas apreensões dentro dos círculos do Exército. A criação de uma organização totalmente militar dentro das SS desafiava o direito do Exército de ser o único portador de armas da nação, uma questão de honra há muito estabelecida. Como as coisas se passaram, nenhuma divisão SS chegou a existir até muito depois da ruptura das hostilidades, porém, elementos do Leibstandarte SS foram as primeiras tropas alemãs a entrar no Saarbrücken durante a ocupação da Renãnia em março de 1936. Não havia dúvida de que isto indicava a importância crescente das SS armadas. Para supervisionar a administração e o treinamento militar das unidades de campanha, foi estabelecido um Inspetorado da Verfügungstruppen, dentro do comando geral das SS, em 1o de outubro de 1936. Para encabeçar esta nova organização, Himmler escolheu um soldado profissional de alta patente, Paul Hausser, que se havia desligado do Exército com o posto de tenente-general. Este já exercia funções nas SA e foi transferido para as SS, tornando-se diretor da primeira academia de oficiais da organização, a SS Junkerschule “Braunschweig”. Hausser iria se tornar o soldado número 1 das Waffen-SS, o primeiro oficial SS a comandar um corpo-de-exército, um exército e finalmente, todo um grupo de exércitos.
O recém nomeado SS Brigadeführer Hausser reuniu os vários batalhões da SS Verfügungsgtruppe para formar dois novos regimentos, “Deutschland” sob o comando do SS Standartenführer Felix Steiner, e o “Germania” sob o comando do SS Standartenführer Karl Demelhuber. O Leibstandarte SS permaneceu aquartelado em Berlim. Devido ao pequeno tamanho e a intenção inicial de criar uma força de elite, o adestramento da SS Verfügungstruppe alcançou um nível mais elevado do que o das unidades de infantaria do Exército. Até 1939, os infantes SS eram treinados como tropas de assalto. Competições esportivas e rigoroso programa de preparação física eram parte integral do programa de adestramento, uma característica não encontrada no treinamento normal das tropas do Exército. O produto final foi similar ao dos Rangers do Exército americano. A doutrinação política e ideológica nunca permitia ao soldado SS esquecer que ele fazia parte de uma formação de elite do Partido Nazista. O alistamento dentro das SS garantia, automaticamente, a inscrição nas fileiras do NSDAP.
No início da guerra, as unidades militarizadas das SS eram uma força insignificante. A experiência de Hitler com as SA o ensinou a ter cuidado com exércitos particulares; e neste estágio, todo o cuidado era pouco para não irritar a liderança da Wehrmacht (Nota do Copista: Forças Armadas alemãs, embora o costume tenha levado este nome a tornar-se sinônimo de Exército alemão – denominado Heer.) que era muito ciosa de seus direitos como “única portadora de armas na defesa do Reich”. A participação das tropas de combate SS nas campanhas da Polônia, em 1939, e do Ocidente, em 1940, pode ser considerada, em parte, como jogada propagandística montada por Himmler para aumentar o prestígio de sua fatia do Estado Nazista; a alta-roda do Terceiro Reich sempre se caracterizou pelas rivalidades e ciumeiras pessoais e interdepartamentais. O fracassado criador de galinhas que estava, agora, na posse de um enorme poder como Reichsführer-SS e Chefe Supremo das Polícias Alemãs, acalentava o sonho de transformar sua legião de espécimes arianos puros - racial e politicamente - numa espécie de nova Ordem dos Cavaleiros Teutônicos (Nota do Copista: diga-se, de passagem, que a verdadeira Ordem Teutônica, nunca manifestou simpatia pelo nazismo e acabou sendo declarada extinta por decisão de Hitler, tendo todas as suas propriedades na Alemanha, Áustria e Tchecoslováquia, confiscadas. Mais tarde, doze dos seus freires foram enforcados por participação na tentativa de golpe, em julho de 1944).
O Führer antevia a função do ramo combatente das SS depois do que se esperava ser uma curta guerra, como uma força de polícia política militarizada, de elite e absolutamente leal. Ambas as ambições exigiam que as tropas SS tivessem uma participação visível nas vitórias da Wehrmacht. Não se esperava demais delas; por volta de 1939, elas haviam atingido um padrão de adestramento que tornava plausível sua participação em combate. Paul Hausser tinha obtido um grande sucesso, e a capacidade de luta exibida pelas Waffen-SS deve-se mais a ele do que a qualquer outro. Uma combinação de rígida seleção física, treinamento militar extremamente duro, doutrinação ideológica e meticuloso treinamento de disciplina de campo de parada produziram, pelo verão de 1939, as seguintes unidades:
SS-Leibstandarte “Adolf Hitler” (LAH) – Um regimento de infantaria motorizada a três batalhões (sturmbann) com artilharia leve orgânica e unidades anti-tanque e de reconhecimento blindado. O Leibstandarte forneceu um batalhão para o Anschluss (anexação) da Áustria em 1938.
SS-Standarte “Germania” – Composição similar ao LAH; tomou parte nas ocupações da Áustria e dos Sudetos.
SS-Standarte “Der Führer” – Formado por austríacos. Composição semelhante aos anteriores.
SS-Standarte “Deutschland” – Regimento de infantaria a quatro batalhões. Tomou parte na ocupação dos Sudetos em 1938.
Em adição a estas unidades, coletivamente denominadas SS-Verfügunstruppe (SS-VT), Himmler tinha a sua disposição cinco regimentos de “Totenkopfwachsturmbanne” – Batalhões de Guardas da Caveira).
AS SS VÃO À GUERRA.
Os regimentos “LAH” e “Germania” lutaram na Polônia sob os comandos, respectivamente, dos 10o e 4o Exércitos alemães; o “Deutschland” formou como parte da chamada Panzerverband Ostpreussen (também conhecida como Divisão Panzer “Kempf”). O “Der Führer” foi enviado para posições defensivas na West Wall (Muralha Ocidental). Todos passaram por uma reorganização após o cessar-fogo. O “LAH” permaneceu como um regimento motorizado autônomo, mas recebeu generosa alocação de novos equipamentos. Os outros três regimentos foram reunidos em outubro de 1939 numa formação, denominada na primavera de 1940, “SS-Verfügungsdivision” (Divisão de Prontidão das SS), incorporando artilharia divisionária e outros serviços de apoio. No dia 2 de março de 1940, as unidades de combate das SS, receberam o título oficial de Waffen-SS, ou SS Armadas.
A decisão mais interessante concernia às unidades de segurança Totenkopf. Três regimentos serviram como tropas de ocupação na Polônia, mas foram reconvocadas para os campos; grande número dos seus integrantes; alguns membros da SS-Verfüngungsdivision e reservistas das Allgemeine-SS foram todos reunidos numa divisão de campanha , a SS-Totenkopfdivision – sob o comando de Eicke. Esta confusão entre tropas de combate e os escórias da guarda dos campos de concentração, derivou da rígida restrição imposta ao recrutamento para as Waffen-SS: nem a Wehrmacht ou Hitler, ambos por suas própria razões, queriam Himmler arrebanhando tantos bons soldados em potencial. Como Chefe de Polícia, Himmler podia recrutar pessoal da polícia de segurança sem restrições. Portanto, ele passou a transferir homens das Totenkopf-SS para unidades de combate, substituindo-os nos campos por recrutamento direto de pessoal da polícia. Desta forma, ele tinha um método alternativo de expandir suas unidades combatentes. Dez novos regimentos Totenkopf foram disponibilizados em 1939-40.
O papel desempenhado pelas Waffen-SS no Oeste em 1940 foi muito fotografado mas de pouca importância militar – elas representavam, afinal de contas, apenas duas divisões e um grupamento regimental, num total de 89 divisões empregadas. O Leibstandarte-SS e a SS-Verfügungsdivision, combateram bem; a qualidade marcantemente inferior da SS-Totenkopfdivision foi sublinhada por pesadas baixas. (O massacre de prisioneiros britânicos em Le Paradis foi instigado por um oficial da Totenkopf, histérico com as baixas sofridas por seus homens mal-treinados enquanto assaltavam a posição.)
Ambos, o Leibstandarte e a SS-Division “Reich” (a rebatizada SS-Verfügungsdivision) usaram seus excelentes elementos motorizados com bom efeito nas campanhas-relâmpago nos Balcãs, no primavera de 1941. Na invasão da Rússia, em junho, o Leibstandarte já havia atingido o “status” de divisão, senão em força, pelo menos em nome. Ele serviu no setor sul da Frente Russa, e a divisão “Reich” na setor central; a divisão Totenkopf serviu na frente de Leningrado no extremo norte. Todas estas unidades serviram sob estrito comando tático local do Exército – não havia a menor idéia de grupá-las em algo parecido com um “Corpo-de-Exército SS”. Hitler ainda considerava cômicas, as pretensões militares de Himmler, mas não fazia objeção a que suas forças de segurança de elite fossem endurecidas em combate e pregassem algumas prestigiosas medalhas em suas túnicas. Ele permitiu a Himmler que expandisse, levemente, as Waffen-SS embora não ao ponto de afetar o recrutamento de potencial humano, melhor empregado no Exército; o método usado por Himmler foi altamente significativo.
Ele havia reunido mais uma formação de cães de guarda da Totenkopf, grandiosamente denominada SS-Division “Nord”, antes da Operação Barbarossa. Ele reteve, sob seu controle pessoal, na condição de Chefe das Polícias Alemãs, outra formação de baixa categoria formada por antigos policiais, a Polizei-Division, que viu alguma luta na França e serviço de ocupação na Polônia, mas que não era, “espiritual” ou nominalmente, parte das Waffen-SS, nesta época – embora o uso da águia das SS na manga esquerda de suas túnicas, indicasse o caminho. Muito mais importante que qualquer uma dessas divisões foi a criação de uma nova formação com o romântico título de SS-Division “Wiking”, que marchou para dentro da Rússia sob o comando do Grupo-de-Exércitos “Süd”: pois metade de sua força era composta, não por homens das SS, nem mesmo por alemães, mas por recrutas voluntários das nações ocupadas da Europa.
Tal recrutamento dificilmente seria de surpreender. Avassaladas com espantosa rapidez apenas alguns meses atrás, as nações ocidentais ainda estavam por sentir o peso total da brutalidade nazista. Era muito cedo para que uma significativa atividade das Resistências pudesse tornar-se o foco para o patriotismo. Nestes países já floresciam genuínos movimentos populistas e anticomunistas, que forneceram os recrutadores com uma boa lábia graças a sua retórica de uma “Cruzada anti-bolchevista”. Grande números de voluntários se apresentaram em 1940-41, e durante toda a guerra tais unidades geralmente ganharam uma alta reputação de combate. Apesar de seus títulos emotivos, no entanto, deve ser lembrado que elas sempre contiveram um grande número de alemães, e como a guerra se arrastasse, elas foram usadas como depósitos para todos os tipos de renegados estrangeiros. A coragem exibida pelos voluntários estrangeiros não rendeu às suas pátrias nenhum tipo de concessão política; o privilégio deles estava limitado a morrer como “bucha-de-canhão” dos alemães. Juntamente com a Divisão “Wiking”, outras pequenas “legiões” voluntárias foram criadas para serviço na Rússia, a maioria com o Exército, mas algumas com as Waffen-SS desde o início.
As três divisões “clássicas” das Waffen-SS e a nova divisão “Wiking” combateram duramente na Rússia, ganhando uma reputação mais respeitável entre seus camaradas do Exército por sua resistência em face de severas condições e elevadas baixas; esta reputação não foi seriamente afetada pelo, relativamente, pobre desempenho da Divisão “Polizei” e a desgraça da Divisão “Nord”. Na primavera de 1942, a “Polizei” foi tornada, oficialmente, parte das Waffen-SS. Na mesma época, outra divisão, formada basicamente por estrangeiros foi formada. A Divisão de Montanha de Voluntários SS “Prinz Eugen” foi recrutada de alemães “étnicos” (Volksdeutsche) nos territórios do antigo império austríaco, e foi enviada contra os “partisans” iugoslavos no outono de 1942. Neste verão uma oitava divisão apareceu na ordem de batalha das SS, com a elevação ao “status” divisionário da SS-Kavallerie Brigade “Florian Geyer”. Esta era, inicialmente, uma das três brigadas Totenkopf (as outras duas eram de infantaria motorizada) que operavam nas áreas de retaguarda da linha de frente na Rússia, em ações de segurança; todas estavam sob o controle de Himmler, sendo anexadas, conforme a necessidade, às forças dos HSSPF locais (Höhere SS und Polizeiführer, ou Alto-Comandantes das SS e Chefes das Polícias Alemãs, em cada território ocupado). Com o passar do tempo, seus regimentos foram drenados para fornecer recompletamentos para as formações de campanha das Waffen-SS, dizimadas nas lutas de 1941-42.
Em 1943, este quadro mudou dramaticamente. O Exército alemão foi desacreditado devido às derrotas na Frente Russa e na África do Norte; e Hitler foi, afinal, seduzido pelo charme do crescente exército de lutadores fanáticos das SS. Preocupações com a política interna de pós-guerra eram, agora, um luxo – o que o “Monstro de Bigode” precisava, naquele momento, era de generais e divisões que conquistassem vitórias, como a obtida por Paul Hausser e suas divisões blindadas SS durante a reconquista de Kharkov, o primeiro triunfo das armas alemãs depois de muito tempo (NC: a despeito do detalhe, “insignificante”, de que todos os planos da contra-ofensiva de Kharkov foram traçados por generais do Exército.) As Waffen-SS, a partir dali, empreenderam uma rápida e enorme expansão, na qual certos elementos distintos podem ser traçados. Foram criadas três novas divisões Panzer de “reichsdeutsche” (alemães nacionais), para se juntarem às três divisões clássicas, cujo “status” de formações blindadas já era uma realidade, muito antes de seus títulos serem alterados para se adequarem a sua atual quadro de organização como divisões Panzer SS. A estas divisões, juntaram-se um certo número de novas formações de estrangeiros, já agrupados dentro das existentes legiões voluntárias que serviam ao Exército ou às Waffen-SS. Outras tropas ficariam disponíveis para as frentes de batalha principais ao repassarem as tarefas de guerra anti-guerrilha para formações SS estrangeiras ainda mais bizarras, tais como a Divisão SS “Handschar” de muçulmanos bósnios, o que significou o total abandono das limitações raciais.
A proliferação e alargamento – ao menos, no papel – de formações estrangeiras continuaria até o fim da guerra. Entre inícios de 1943 e inícios de 1945, a ordem de batalha das Waffen-SS cresceu de 8 para 38 divisões. Muitas destas eram meramente fictícias, no sentido de que, as ordens para formação e desdobramento raramente refletiam a verdadeira forças ou prontidão delas para o combate. Várias “divisões” nominais não reuniam mais do que poucas centenas de homens mal-equipados. Uma mistura de “Volksdeutsche”; estrangeiros desorientados; pessoal da Luftwaffe ou da Marinha alemã, que não tinham mais “navios, aviões ou gasolina”; e categorias marginais de reservistas da Polícia ou das Allgemeine-SS, talvez robustecidas pela presença de membros dos centros de treinamento das Waffen-SS. Por bizarras que sejam tais formações, não deve ser esquecido que as divisões Panzer e Panzergrenadier das SS constituíam-se nas mais eficientes tropas da Alemanha, nos estágios finais da guerra, atingindo um padrão não-ultrapassado e raramente igualado por forças de combate de qualquer outra nação.
Números exatos nunca serão conhecidos, mas as melhoras estimativas indicam que cerca de 180 mil homens das Waffen-SS foram mortos em ação; aproximadamente 400 mil foram feridos, e provavelmente outros 40 mil estão registrados como “desaparecidos”. A totalidade do quadro de organização das divisões “clássicas” se transformou em baixas, várias vezes, por assim dizer; e os adolescentes da 12a Divisão Panzer SS “Hitlerjugend” ainda estavam cheios de espírito ofensivo depois de sofrerem perdas de 20% em mortos e 40% em feridos durante quatro semanas de luta contínua na Normandia.
ATROCIDADES.
A questão da moralidade não pode ser ignorada dentro do estudo das formações SS. O número de integrantes das Waffen-SS totalizou mais de um milhão de homens, e qualquer generalização individual seria fátua. Tendo dito isto, entretanto, temos de reconhecer certas generalizações baseadas em registros históricos indiscutíveis. As Waffen-SS cometeram atrocidades dentro e fora do campo de batalha. O mesmo fizeram os exércitos aliados durante a Segunda Guerra Mundial; e também, os exércitos ocidentais depois de 1945. O registro das Waffen-SS, de alguma forma, se assemelha à certas atrocidades coloniais do pós-guerra, no fato de que ambas foram resultado do “stress” do combate somado à um total desprezo pelas qualidades humanas do inimigo e de sua população civil. Mas nas Waffen-SS, tal desprezo era deliberadamente forjado como questão de ideologia. Enquanto algumas atrocidades foram obra de indivíduos ou pequenos grupos agindo no calor do momento, como, infelizmente, acontece em qualquer exército e em qualquer guerra, há farta ocorrência de maiores atrocidades levadas à cabo por grandes unidades, sob ordens superiores, e como questão de política. Sabemos que unidades aliadas, algumas vezes fuzilaram prisioneiros; porém, tanto quanto o autor saiba, unidades dos Aliados Ocidentais nunca massacraram populações inteiras de vilarejos europeus. As formações SS “bizantinas”, recrutadas entre povos semi-bárbaros para guerra anti-guerrilha, tem um registro particularmente ruim. Mas a culpa não pode recair apenas sobre elas; um pequeno número de formações Reichsdeutsche foram igualmente culpadas de excessos revoltantes. Sendo assim, pode-se dizer que em extensão, em natureza, em grau de sanção oficial e em atitude forjada especificamente dentro da organização, o registro de atrocidades das Waffen-SS é pior do que qualquer outra força militar, seja dos Aliados Ocidentais ou do Exército alemão.
Deve-se notar, particularmente, o comportamento das diversas forças combatentes da Alemanha na Frente Ocidental, de maio de 1940 até o fim da guerra. É um fato concreto que o Exército Regular alemão acabou sendo levado junto na onda de atrocidades iniciada de forma deliberada, como política “extra-oficial” de guerra contra a União Soviética, pelo regime nazista, e seguida pelos atos de represália dos soviéticos, governados por uma liderança que não ficava tão longe do nazismo na questão do absoluto desprezo pela ética e pela vida humana. Tal tipo de comportamento também foi apresentado por unidades e comandantes do Exército em áreas de operação caraterizadas por intensas lutas anti-guerrilha como os Bálcãs. O ódio aos militares da Itália, considerados traidores devido ao armistício de setembro de 1943, provocou o espantoso massacre de quase 5 mil soldados e oficiais aprisionados da Divisão Acqui italiana, na ilha grega de Cefalônia. Os responsáveis pela chacina pertenciam à 1a Divisão de Montanha, tropa do Exército alemão. Porém, o comportamento dos militares alemães na França foi quase que irrepreensível, como é confirmado pela própria Resistência Francesa, normalmente o alvo número 1 de atos de represália. Em absoluto contraste com tal atitude, deve-se salientar o repugnante comportamento das tropas de combate das Waffen-SS. A esmagadora maioria das grandes atrocidades cometidas na Europa Ocidental, dentro e fora do campo de batalha, foram obra de tais formações. Na Campanha de 1940, o Leibstandarte SS massacrou 80 prisioneiros britânicos em Wormhout, em 28 de maio. Um dia antes, a Divisão Totenkopf havia executado 100 sobreviventes do 2o Royal Norfolks (NC: 2o Batalhão do Real Regimento do Condado de Norfolks), em Le Paradis. Apesar da insistência do Exército em levar os responsáveis a julgamento, as Waffen-SS só lhe estavam subordinadas em questões táticas e não em assuntos disciplinares. Além destes atos, o comando das Waffen-SS, atribuiu as suas unidades a mesquinha ordem que proibia dar sepultamento aos soldados africanos das tropas coloniais do Exército francês. Ordem que foi desafiada por valorosos civis franceses, naquele que foi o primeiro ato de resistência ao invasor nazista. Na Campanha de 1944, a 2a Divisão Panzer SS “Das Reich” cometeu uma das mais horríveis atrocidades já ocorridas em solo europeu, a destruição da vila francesa de Oradour-sur-Glane, onde mais de 600 pessoas foram assassinadas. Os homens por fuzilamento, e as mulheres e crianças, amontoadas dentro da igreja do vilarejo que foi incendiada a seguir. A 12a Divisão Panzer SS “Hitlerjugend” foi responsabilizada pela execução de 134 prisioneiros canadenses durante a luta na Normandia. Na Batalha das Ardenas, em dezembro, elementos do Leibstandarte SS, executaram mais de 90 prisioneiros de guerra americanos, em Malmedy. Na Frente italiana, tropas da 16a Divisão Panzergrenadier “Reichsführer-SS” operando em missão anti-guerrilha, levaram a cabo atos de selvageria ainda mais terríveis do que a destruição de Oradour. Em 12 de agosto de 1944, queimaram a vila de Sant’Anna di Stazzema, exterminando 560 pessoas. No dia 18 de outubro, aniquilaram a comuna de Marzabotto, na província de Bolonha. Ao se retirarem, as tropas das Waffen-SS deixaram para trás 1604 cadáveres de homens, mulheres e crianças. Além destes civis, 226 “partigiani” italianos foram executados.
Deve-se notar que, a separação muito apregoada pelos apologistas de pós-guerra, entre as unidades de campo de batalha das Waffen-SS e as ainda mais sinistras organizações das SS tais como os Einsatzgruppen (Grupos de Ação, unidades móveis de extermínio de populações “indesejáveis”, que agiam na retaguarda dos exércitos alemães. Compostos por destacamentos do SD, da Gestapo – Polícia Secreta -, da Ordnungspolizei - Polícia Civil fardada -, e por elementos de combate das Waffen-SS ) e os Totenkopfverbände, não resiste a um exame detalhado; havia uma separação, mas esta era de alguma forma porosa.
Característica da atitude da melhor parte do oficialato das Forças Armadas alemãs foi a postura do Marechal-de-Campo Erwin Rommel, o famoso comandante do Afrika Korps, tropa cuja bravura no campo de luta em nada diferia daquela das melhores tropas das Waffen-SS, com a insuperável vantagem de nunca ter tido suas ações em combate manchadas por atrocidades semelhantes às destas últimas. Ao tomar conhecimento do ocorrido em Oradour, Rommel exigiu permissão para punir os responsáveis. Na Conferência de Margival, Rommel pronunciou as seguintes palavras:
"FATOS COMO ESSES DESONRAM O UNIFORME ALEMÃO. NÃO É DE SE ADMIRAR O CRESCIMENTO DA RESISTÊNCIA FRANCESA QUANDO AS SS FORÇAM TODO CIDADÃO DECENTE A EMPUNHAR ARMAS CONTRA NÓS!"
Isto ele disse na cara de Adolf Hitler.
Apesar de tudo, permanece igualmente válido que muitos oficiais, praças e unidades inteiras das Waffen-SS exibiram repetidas vezes padrões de coragem, disciplina e auto-sacrifício que merecem o respeito de qualquer soldado ou historiador. De uma posição de desprezível obscuridade, estas unidades conquistaram uma reputação de combate que não era segunda para ninguém. Sua confiabilidade férrea levou-as a serem empregadas como “bombeiros de combate”, transferidas de um setor para outro a fim de escorar linhas de frente em colapso iminente, ou para se sacrificarem em contra-ataques desesperados, sem ligar para as baixas impressionantes. Suas realizações puramente militares as qualificam como de interesse e objeto de estudo para as futuras gerações de pesquisadores de assuntos bélicos. Negar isto é, certamente, demonstrar uma cegueira proposital, exatamente igual à dos ingênuos ou francamente apologistas de seus indubitáveis crimes, que continuam a pôr em discussão as mesmas desgastadas mentiras, numa tentativa de ocultar o lado sombrio da história das Waffen-SS.
Extraído de:
WINDROW, Martin. – The Waffen-SS, Osprey, 1997;
KEEGAN, John. – Waffen-SS, Rennes, 1975;
Dicionário Oxford da Segunda Guerra Mundial;
YOUNG, Desmond. – Rommel, Bibliex
Fonte deste artigo: Compilado por Guilhaume, a partir das fontes indicadas no texto.
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