Infantaria japonesa em Cingapura


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Relato selecionado

A vida no Stalag 7A, Moosburg - Parte I
Relato de um tenente do 11o Regimento de Infantaria capturado no Monte Castelo e sua estadia na Alemanha em 1945

Odisséia dum “Krige” (1)

Por Emílio Varoli, tenente da Reserva, nascido em São Paulo em 1912, era médico veterinário na vida civil. Comandou um pelotão do 11º R.I. na guerra, sendo condecorado com a Cruz de Combate de 1ª Classe, Bronze Star, Medalhas de Campanha e de Guerra do Brasil e promovido a Capitão ao retornar a reserva. Foi o único oficial de infantaria a ser capturado pelos alemães, no terceiro ataque ao Monte Castelo.

1) Interrogatório

Capturado no ataque de 12 de dezembro em Abetaia, fui levado para uma das casas desse povoado, onde fui tratado com certa deferência mesmo antes de ter-me identificado como oficial.

À noitinha fizeram-me subir o Monte Castello, obrigando-me a andar, apesar do congelamento dos pés. Desnecessário é dizer o sofrimento que me causava aquela subida, que nada mais era que um arrastar miserável dos pés insensibilizados, logo seguido de uma queda na lama. Só mais tarde, entre os americanos, que me explicaram o congelamento com todos os detalhes e seu tratamento, é que percebi que aquela caminhada me salvara os pés restabelecendo paulatinamente a circulação.

Chegados ao comando da Cia., situado a uns dez metros abaixo do solo no cume dum morrote, encontrei seis soldados do 1º R.I. [Regimento de Infantaria] que também haviam sido capturados naquele dia.

Fui recebido amigavelmente pelo Capitão alemão, que se achava com um oficial médico atendendo aos feridos alemães. Ofereceram-me um pouco de conhaque e puseram-se a conversar comigo em inglês.

A um dado momento o Capitão diz-me:

- Francamente, vocês brasileiros ou são loucos ou muito bravos. Nunca vi ninguém avançar sobre metralhadoras e posições bem defendidas com tanto desprezo pela vida.

- Capitão, nós cumprimos as ordens recebidas.

- Eu sei disso. Mas a tropa brasileira perdeu no ataque de hoje uma centena de homens entre mortos e feridos [na verdade foram 145 baixas], contra cinco mortos e treze feridos nossos.

- Capitão, os brasileiros não fogem à luta, haja o que houver.

- Vocês são uns verdadeiros diabos. Na minha opinião, depois do soldado alemão que incontestavelmente é o melhor do mundo, os brasileiros e os russos são os melhores lutadores que já vi.

- Essa é sua opinião, mas não a minha.

Em seguida, o Capitão pediu minha identificação e avisou-me que nessa mesma noite eu deveria ser encaminhado ao comando do Regimento [Reg. 1045, da 232 DI alemã], no outro lado do Monte Castelo.

Despedimo-nos e juntamente com os seis soldados brasileiros, retomei a subida.

Seriam umas três horas da madrugada quando chegamos ao P.C. do Regimento situado em Pavullo sul Frignano, onde fomos alojados num estábulo. De manhã fomos acordados por um alemão que falava o português corretamente e que contou ter vivido em Santa Catarina durante uns doze anos.

Avisou-nos que iríamos à presença do Comandante do Regimento e deu-nos instruções sobre como devíamos portar-nos diante dele.

Foi somente ai que pude observar bem os meus companheiros de prisão. Um 3º Sargento, dois cabos e três soldados. O Sargento, de cor parda, parecia não gozar da estima de seus colegas, porém não tive oportunidade de esclarecer isso no momento, pois logo a seguir fomos levados ao Comando e colocados em linha num corredor.

Abre-se a porta e aparece um major, tipicamente prussiano, de cabelos grisalhos e cara fechada. Olhou-nos em silêncio e ao deparar com o sargento rosnou depreciativamente “Ein nigger”. Dirigiu-nos várias perguntas vagas por intermédio do intérprete e retirou-se.

Logo depois fui interrogada por um jovem tenente e o que me deixou estupefato foi notar que ele sabia coisas a respeito da F.E.B. que eu absolutamente ignorava e que me pareciam verdadeiras. Procurei despistá-lo o mais possível; não sei se o consegui.

Fomos enviados em seguida a Albineri e posteriormente a Parma e Montova.

Aqui, pela primeira vez, entrei num campo provisório (Dulag) de prisioneiros, com os célebres armados farpados.

Separado dos soldados, fui alojado num barracão amplo onde encontrei dois majores, quatro capitães, dois tenentes ingleses e canadenses e quatro tenentes americanos.

Apresentei-me ao Major encarregado (que chamarei de Jones) e ele apresentou-se aos outros oficiais.

Entabulando conversa, verifiquei que, se até então tinha comido passavelmente, a partir desse momento devia aprender a apertar a cinta, pois a comida que nos serviam era escassa e resumia-se numa caneca de água quente com chicória, o café ersatz, pela manhã, uma concha de sopa no almoço e 250 gramas de pão com um pedaço de salsicha ou queijo à tarde. Isso tinha como finalidade manter-nos num estado de subnutrição, quebrando assim toda veleidade de resistência às ordens ou tentativas de fuga.

Pelo que me era dado observar, os meus companheiros já tinham alguma prática da venalidade dos carcereiros, pois já tinham conseguido trocar várias bugigangas como relógios e outras por alimentos.

Como possuo alguns parentes em Mantova, procurei logo um jeito de fugir e abrigar-me junto deles até achar oportunidade de atravessar as linhas. Estudando o lugar vi que a saída era possível pelo Lago de Mantova. Falei a respeito com o Major Jones mas ele logo discordou, dizendo que assim que os alemães dessem pela minha fuga vingar-se-iam nos que ficassem. Não mais discuti o assunto e fiquei aguardando uma oportunidade para fugir.

(II) A caminho da Alemanha

No dia seguinte [duas semanas depois] pela manhã recebemos ordens para embarcar, pois íamos ser removidos para um campo definitivo e ai pelas nove horas saímos com forte escolta, passando pelas ruas de Mantova a caminho duma estaçãozinha de subúrbio.

Fomos embarcados, os oficiais, num vagão de transporte de animais, fechado no meio por uma rede de arame farpado e ocupamos uma das metades. O desconforto era imenso, pois não cabíamos todos sentados ao mesmo tempo naquele espaço exíguo e assim foi estabelecido um revezamento para sentar e deitar, de duas em duas horas. Porém o revezamento mais desagradável era o da caixa de necessidades, um caixão colocado a um canto, com um tampo, e sobre o qual um de nos devia ficar sentado devido à falta de espaço.

Na outra metade do vagão iam quatro guardas armados até os dentes.

Pouco antes da partida do trem ouvimos uma gritaria ao longo da composição, até que um sargento chegou à altura do nosso vagão.

- Tirem as botinas e joguem-nas para cá – gritou ele. Nós fingimos não tê-lo ouvido ou entendido.

O Homenzinho ficou rubro de cólera:

- Joguem as botinas, já disse, se não vou aí tirá-las à força.

Ninguém respondeu.

O sargento subiu no vagão e começou a dirigir-nos impropérios e ameaças apocalípticas. Então o Major Jones dirigiu-se a um capitão do nosso grupo que falava corretamente o alemão: “Diga a esse idiota que ele está se dirigindo a oficiais e que nenhum de nós tirará as botinas”; enquanto isso nos revidávamos as ‘gentilezas’ do bruto em várias línguas.

O recado foi transmitido na íntegra e o homem desceu furibundo voltando daí a pouco com um Capitão.

Este dirigiu-se delicadamente ao Major e disse-lhe: “Se os senhores me derem a palavra de honra de que não tentarão fugir, permitirei que conservem as botinas’.

O Major respondeu-lhe que não dávamos a palavra pedida, pelo contrário, garantiu-lhe que se se apresentasse à ocasião fugiríamos incontinenti e que não tiraríamos as botinas.

O Capitão sorriu e voltando-se para a guarda: ‘Se algum deles tentar fugir, atirem para matar’, e deu ordens de partida ao trem.

Efetivamente, à tarde [de 24 de dezembro, após quatro dias de viagem] o comboio seguiu e logo parou em Mossburg, onde descemos.

Fomos logo encaminhados a um imenso campo, que soubemos ser o Stalag 7-A.

III) Começa a vida de um prisioneiro no campo

Logo após o portão via-se uma espécie de arco de triunfo feito de madeira, no qual estavam esculpidas as figuras dos soldados das Nações Unidas, aprisionados e caminhando sob escolta por uma estrada onde havia uma placa com os dizeres ‘Nach Berlin’ (‘Para Berlim’) e em baixo em grandes caracteres: ‘Só assim é que chegarão a Berlim’.

Dirigimo-nos a um barracão amplo, onde ficamos amontoados no chão recoberto de palha e ai permanecemos durante seis dias, de quarentena.

Finalmente, no dia 31 de dezembro, somos enviados a um grande salão e obrigados a tirar toda a roupa, que foi revistada minuciosamente. A seguir passamos para uma sala de banhos, enquanto nossa roupa era esterilizada em vapor. Foi o primeiro banho que tomei desde 10 de dezembro e passariam mais de 40 dias antes de receber outro.

Depois do banho, em troca das carteiras de identidade recebemos uma placa numerada; a partir desse momento eu era o prisioneiro nº 143.040 da Stalag 7-A.

Foi-nos então dado papel para que enviássemos uma mensagem à família por intermédio da Cruz Vermelha Internacional, porém o Major Jones nos fez notar que o impresso dizia que a mensagem seria irradiada na hora de propaganda que a Alemanha emitia para todos os países inimigos e todos recusamos.

Atravessando cinco cercas de arame farpado, chegamos a um barracão situado bem no meio do campo, onde fomos apresentados ao Major Smith, encarregado dos prisioneiros, que designou as camas e o block.

O block era uma turma de 4 ou 5 prisioneiros que recebiam em bloco tudo que fosse distribuído tal como rações alimentares, pacotes da Cruz Vermelha, cobertores, cigarros, etc.

O regime de ‘abundância’ alimentar era idêntico ao de Mantova e não fora os pacotes da Cruz Vermelha, creio que poucos de nós teriam saído de lá com vida.

O meu block era composto de um Major, um Capitão-Médico e um tenente das tropas de De Gaule e eu.

O Capitão parece que não gostou muito de mim e queixou-se ao Major por me terem colocado no block; respondi-lhe logo, em francês, que eu é que iria solicitar a mudança para outro block.

Passada a surpresa, ele caiu em si e pediu mil desculpas pela grosseria, enquanto o Major ria a bandeiras despregadas.

Depois da refeição encheram-me de perguntas sobre o Brasil e foi então que comecei a notar o quanto o nosso país é ‘um grande desconhecido’. Surpreenderam-se ao saber que no Brasil o ensino da língua francesa é obrigatório nos ginásios, bem como com muitas outras coisas, das quais não tinham a mínima noção.

Para encurtar, tornamo-nos muito bons amigos, especialmente do Major, dono dum bom humor inalterável.

Começou então aquela vida monótona; alvorada às 7 horas, formatura às 7,30 água quente às 8, sopa às 11 e jantar às 5.

A sopa consistia numa concha de água quente onde nadavam algumas verduras e acidentalmente uma migalha de carne de cavalo. O único dia em que o ‘menu’ melhorava era às quintas-feiras quando recebíamos uma sopa de cevada com certa consistência.

O assim chamado jantar constava de 200 grs. de pão de batatas, 300 grs. de batatas em estado próprio para serem jogadas fora e um pedacinho de queijo ou salsicha.

Não fora os pacotes da Cruz Vermelha e muitos entre nós teriam morrido de pura inanição, pois o cálculo de calorias alimentares fornecidas diariamente pela comida alemã mal atingia a 600, segundo avaliação feita pelos nossos médicos.

O barracão onde fui alojado era dividido em duas partes pela cozinha, a qual era mantida só para o representante da ‘Potência protetora’ (A Suíça) ver que nós éramos bem tratados e dispúnhamos de tudo.

Em cada uma das metades alojava-se uma centena de homens.

A princípio, não sei por que razão, os alemães nos forneciam um pouco de carvão e lenha que eram utilizados na cozinha para aquecer a comida e fazer um pouco de chá assim como na estufa do alojamento. O frio era terrível, tendo chegado a 20o abaixo de zero, mas como a cozinha e a estuda funcionando em breves períodos ainda podíamos tolerar a temperatura mantendo-nos na campa a maior parte do tempo.

IV) Incidentes na rotina do campo de prisioneiros

Eis que um dia alguns prisioneiros conseguiram fugir. Foi um Deus nos acuda!

Os alemães fazendo uma tremenda exibição de força, armados de metralhadoras portáteis e acompanhados de matilhas de ‘dogues’ nos puseram para fora dos alojamentos e ficamos ao ar livre expostos à neve que caía em abundância, enquanto eles revistavam a barraca.

Depois disso começou a chamada que se prolongou durante uma hora. Conferência de números, soma, cochichos entre os encarregados da chamada.

Nova chamada, nova conferência e novos cochichos.

Afinal o Capitão alemão encarregado do serviço chamou o Major Smith e entabularam este curioso diálogo:

- Major, faltam três prisioneiros.

- Sim – respondeu o Major.

- Mas não podem faltar.

- Porém a verdade é que estão faltando – retruca o Major.

- Mas não é possível que faltem prisioneiros – insiste o Capitão.

- O Sr. não contou os prisioneiros que faltam? Não faltam três? Ai está o fato.

- Aviso-o que enquanto não esclarecermos o seu paradeiro, vocês não voltarão para a barraca.

- Capitão, não tenho a mínima idéia a respeito.

Depois de muitas confabulações entre os guardas, nós começamos a lançar-lhes impropérios e então nos permitiram que voltássemos aos alojamentos. A revista repetiu-se mais duas vezes durante o dia e uma vez pela madrugada, sempre com o mesmo aparato.

Nos dias que seguiram continuou a importunação, mas aos poucos foram se acalmando e tudo voltou ao normal.

(1) Krige – abreviatura de Kriegsgefangen (Em alemão – prisioneiro de guerra) usada pelos norte-americanos e ingleses.

Imagens gentilmente cedidas pelo sítio "Moosburg Online: Stalag VII A" - http://www.stalag.moosburg.org, que trata do Stalag VIIA.

Fonte deste artigo: Depoimento de oficiais de reserva sobre a FEB


Links Relacionados ao Artigo

Relatos de Combate : A vida no Stalag 7A, Moosburg - Parte II

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Abetaia, ao pé do Monte Castelo


Entrada do Stalag 7A


Placa de identificação de prisioneiro


Fila de rancho no campo


Planta do Campo de Moosburg